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Porto Velho,  seg,   25/maio/2020     
reportagem

Deu no Correio Braziliense: Crack chega fácil e barato em Rondônia

25/11/2009 15:25:26
Por Edson Luiz
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Em reportagem especial, o principal diário da capital federal mostra o avanço incontrolável das drogas pelo interior do estado de Rondônia. 



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Porto Velho — No caminho entre as áreas de abastecimento e as cracolândias espalhadas pelo país, a droga já faz estragos. Antônio*, de 18 anos, fala pouco, anda sempre de cabeça baixa e com olhar perdido no vazio. Ele é um dos milhares de jovens que já são vítimas do crack no interior de Rondônia, onde a cocaína chega fácil e barata. O rapaz tem o perfil de quase todos os usuários: é pobre, sem estudos, de família desestruturada e começou cedo a fumar a “pedra da morte”. Sua fisionomia não mostra ser de uma pessoa violenta, mas de alguém frágil, que procura a ajuda que ainda não chegou.

Sua história nas drogas começou aos 16 anos, em Santa Luzia do Oeste, uma cidade a 500km de Porto Velho, nascida com a colonização do Vale do Guaporé. A curiosidade de Antônio foi despertada por um primo. “Fumei o crack pela primeira vez na casa dele e nunca mais parei”, conta o rapaz. No corpo, muitas marcas. A maioria causada pelas constantes surras que levava do pai. Apenas uma, apesar da dor, não foi causada pela violência. É uma tatuagem feita rusticamente no braço com o nome de Deus.

Antônio deixou a escola na 5ª série, depois de sair de casa porque era espancado pelo pai, alcoólatra. “Nem sei se ele está vivo ou morto”, diz o jovem. O rapaz começou a roubar para sustentar o vício. Chegou a consumir 10 pedras por dia, adquiridas a R$ 10 em vários locais da pequena cidade onde morava, ou em Rolim de Moura, o município mais próximo.

Antônio não fala sobre sonhos, mas passou a ter um objetivo de vida se um dia largar o crack: ser psicólogo. Sua meta surgiu depois de várias internações assistidas por psicólogos. “Sofri e sofro toda minha vida e só eles (os psicólogos) sabem entender isso”, diz Antônio, ressaltando que em Santa Luiza do Oeste ele é apenas mais um no mundo das drogas. “Em quase todo lugar de lá tem crack”, diz. A cidade fica entre as BR-429, que é uma das portas de entrada da droga no Brasil, e a BR-364, a rota de saída do pó para as cracolândias espalhadas pelo país.

O crack e a cocaína também se tornaram os grandes aliados dos crimes com envolvimento de menores em todo o estado. Nos últimos três anos, somente em Porto Velho foram registrados 120 homicídios, 131 tentativas de assassinato e 32 latrocínios — roubo seguido de morte — envolvendo crianças e adolescentes. “Ou o menor mata porque alguém lhe devia uma pedra (de crack), ou morre porque devia uma pedra para alguém”, diz a delegada da Polícia Civil em Porto Velho, Alessandra Paraguassú. “Infelizmente, a facilidade para conseguir a droga faz com que os menores comecem cedo a consumir”.

No primeiro fim de semana de novembro, por exemplo, de cinco homicídios ocorridos em Porto Velho, três envolviam adolescentes e o motivo foi cocaína ou crack. “Infelizmente cerca de 90% das crianças envolvidas com o crime por causa da droga”, confirma o juiz da Infância e Juventude, Dalmo Antônio de Castro Bezerra. O magistrado afirma que a maconha, normalmente tida como a droga de introdução ao vício, pouco circula em Porto Velho. Os menores partem direto para a cocaína, por causa do baixo custo, qualidade e abundância.

Foi o caso de Paulo Afonso Santos de Lima, de 19 anos. Aos 12, ele entrou para o mundo das drogas, de onde só conseguiu sair depois após cometer um latrocínio e ir para um centro de ressocialização. “Minha vida mudou e hoje minha ideia é arrumar um emprego e estudar” afirma Paulo Afonso, que deixou o centro há duas semanas, depois de passar três anos internado.

“Entrei no mundo das drogas depois da morte de meu pai. Fiquei abalado e comecei a fumar maconha e cheirar cocaína para esquecer”, conta o rapaz. Para manter o vício, juntou-se a amigos para assaltar, terminando por matar uma pessoa durante uma das investidas. Ele sobrevive, ao contrário dos companheiros. “Todos morreram assassinados por causa da droga”, relata o ex-interno, que conseguiu duas façanhas: se formou cabeleireiro e passou no vestibular para biologia numa faculdade particular. 

(*) Nome fictício.

Foto: Sociedade Bras. de Infectologia

FONTE: Correio Braziliense




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