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Porto Velho,  ter,   17/setembro/2019     
reportagem

Filho do Velho Dió levanta história política de Rondônia

23/5/2008 10:04:09
Por Edson Lustosa
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 Zola Xavier, filho de Dionízio Xavier, um dos personagens que mais marcou a trajetória política de Rondônia, vem se debruçando sobre um dos capítulos mais obscuros da história local: o crime da caçamba que esmagou participantes de um comício pró-Renato Medeiros na campanha para deputado federal em 1962. Dionízio, militante de esquerda, era um dos articuladores do movimento popular que abraçara a candidatura de Medeiros.

Pesquisar em Porto Velho dados da história que estão esquecidos é o que trouxe Zola de volta ao município onde nasceu e viveu até os 16 anos. “Depois, como aqui não havia muita opção para prosseguir os estudos, meu pai me mandou estudar fora e fui acabar de ser criado por membros do Partido Comunista”, conta o pesquisador, que foi contemplado com uma bolsa de estudos na Rússia, na época a maior potência comunista do mundo.

Zola aborda em sua pesquisa o período em que se constituiu no Território de Rondônia o que ele define como “uma fantástica frente popular”, que ficaria conhecida por Peles Curtas. “Não era fácil fazer oposição ao coronel Aluízio Ferreira”, diz ele, acrescentando que “antes de 64 em Rondônia era pior do que no regime militar, por causa da tirania de Aluízio Ferreira”. Para ilustra como as coisas funcionavam nessa época, ele cita o próprio pai, Dionízio, que contava que “até para arranjar um emprego na padaria tinha que ter o beneplácito de Aluízio Ferreira”.

Tal frente popular nascera em 1950, quando ganhou consubstanciação política a oposição a Aluízio, um homem poderoso, que tinha articulações junto a Getúlio Vargas.

A relação de Aluízio com Getúlio tinha raízes no movimento tenentista, do qual ambos participaram. “Com a derrota do movimento, Aluízio se refugiou pelos seringais; quando eclodiu a Revolução de 30, foi para o Rio de Janeiro e voltou como administrador da EFMM”, narra Zola, afirmando que, a partir daí, Aluízio articulou seu grupo político.

A partir de 1946 foi o primeiro mandato de Aluízio como deputado federal. Ele, que havia sido o primeiro governador do Território Federal do Guaporé racha com seu sucessor, o Coronel Joaquim Vicente Rondon, que em 1950 disputa com a Aluízio a eleição para deputado federal.

Sobre o processo de formação das bases de oposição a Aluízio Ferreira, Zola afirma que ele não conseguiu segurar os grandes seringalistas, muitos ficaram contra ele. Em 1950, Aluízio ganha mais uma vez as eleições. Mas em 1954 é Rondon quem se elege. Em 1958 Aluízio volta e ganha as eleições. “Com quem não estivesse rezando na cartilha, ele era implacável”, diz Zola, admitindo que existem comentários até mesmo de ordens para matar adversários e desafetos dadas por Aluízio Ferreira: “Pesam acusações sobre o coronel dessa ordem, fala-se em diversos episódios que não foram esclarecidos”.

COMPOSIÇÕES – Os opositores de Aluízio Ferreira perderam as eleições em 1958 e, por essa época, romperam a aliança com Vicente Rondon. Lançaram então em 1962, para cabeça de chapa, o médico Renato Medeiros, que era mais uma pessoa trazida para Porto Velho por Aluzízio Ferreira, mas que rompera com ele. “Ele havia trazido vários elementos, mas as pessoas de bem iam saindo do esquema dele”, explica Zola, lembrando que o próprio Wadih Darwich, que seria governador quando os Peles Curtas assumiram o poder, tinha amizade com Aluízio.

Wadih chegou a ser preso. “Fizeram uma artimanha e prenderam Renato Medeiros e Wadih Darwich, acusados de quererem criar uma República Socialista do Guaporé; nada ficou provado”, conta Zola. Na verdade, era tudo uma estratégia para minar a campanha de Renato Medeiros a deputado federal. Mas em 1962 a frente popular articulada por, dentre outros, Dionízio Xavier, o lançou candidato. Nessa disputa, Aluízio preferiu não concorreu. O clima lhe era desfavorável. E então ele lançou a candidatura de Ênio Pinheiro.

“É curioso observar que o Coronel Ênio Pinheiro e o Coronel Aluízio Ferreira concorriam pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que naquela época era o partido do Jango, do Brizola, da ala progressista, mas aqui ele representava a oligarquia, era a ala podre do PTB”, esclarece Zola. O pesquisador explica que essas composições aconteciam porque a dificuldade era em conseguir-se um partido para viabilizar a candidatura. Já em 1950 fora feito um acordo com o Ademar de Barros, presidente do Partido Social Progressista (PSP). Em 1954 e 1958, os Peles Curtas apoiaram Joaquim Rondon, do PSP. “Embora líder do PTB, Almino Afonso, ministro do Trabalho de Jango, nunca foi ao Palácio do Governo, embora fosse do mesmo partido do Aluízio Ferreira”, observa o pesquisador.



ATENTADO - Fizeram a convenção da ratificação da escolha do médico. Renato Medeiros no Cine Reski, em um dia chuvoso, às 8 horas da noite. Mas lotou: havia gente do lado de fora. Isso em fevereiro de 1962. Nesse evento, Dionízio Xavier falou em nome dos comunistas. Parte-se então para a campanha, com comícios grandes para a época, em que o colégio eleitoral era de 12 a 13 mil em todo o território.

No dia 26 de setembro de 1962, realizava-se o último comício da campanha. Nesse dia houve dois comícios: um no Areal, de Ênio Pinheiro, que tinha em torno de 200 pessoas. Outro na Olaria, de Renato Medeiros, reunindo de 4 mil a 5 mil pessoas. De repente sai o caminhão basculante da Prefeitura de Porto Velho do comício de Ênio Pinheiro e vem para o de Renato Medeiros.

Como era costume na época, quando acabava o comício as pessoas saíam em passeata para deixar em casa o candidato. Conforme depoimento do filho de Renato Medeiros, Raimundo Medeiros, ele teria exortado o pai a não se expor: “Papai não vá na frente.” Por isso o candidato foi no meio da passeata. Segundo Zola, algumas pessoas dizem que o caminhão ainda piscou o farol – “talvez para alertar algum cupincha que por ali se encontrasse” - e saiu em alta velocidade, atropelando quem estivesse pela frente.

Levaram os feridos para o Hospital São José. Lá houve outro episódio do autoritarismo: não permitiram que os familiares tivessem acesso. A conclusão do pesquisador é de que se tratava de uma ação organizada. “Meu trabalho é registrar isso, estou ouvindo diversas pessoas que estiveram no comício; não consegui registro nenhum de nada, procurei inquérito, não encontrei; não houve registro”, diz Zola.

Como o incidente foi à noite, nada foi noticiado no dia seguinte. Somento dois dias depois o jornal Alto Madeira estampava: “1. Comício pró-Renato estava em plena marcha de retorno por entre vivas acompanhando-o até sua residência. 2. Um carro chapa branca da Prefeitura subitamente surge e investe contra a massa popular calculada entre 4 mil a 5 mil pessoas. 3. Resultado trágico: um morto e 21 feridos adultos, 4 crianças. Sendo 4 adultos em estado desesperador e também duas crianças em estado grave. 4. Tropas do Exército conseguiram dominar uma reação popular de conseqüências imprevisíveis. 5. Rigoroso inquérito já teve início. 6. Voltaremos com detalhes, se permitido, com a lista nominal das vítimas

Zola diz não saber esclarecer por que nem o próprio Renato Medeiros, quando deputado federal, não levantou a questão. Também o governador nomeado com o respaldo de Renato, Wadih Darwich, em que pese ter caracterizado sua breve gestão pela atenção à questão social, não tomou qualquer providência em relação ao caso.

Na verdade o silêncio ainda perdura: “O que mais me intrigou foi que até hoje, 46 anos depois, tive dificuldade de colher depoimentos, algumas pessoas preferiram não falar”, desabafa o pesquisador.


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