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Porto Velho,  seg,   10/dezembro/2018     
entrevista

“Nunca houve uma revolução com a bandeira da moral”, diz Clodomir Santos de Morais

7/8/2006 00:14:34
Por Aldrin Willy
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“Politicamente, se você colocar um chileno perto de um brasileiro, dá pena”. A avaliação é do importante sociólogo Clodomir Santos de Morais, consultor da ONU para reforma agrária e capacitação de trabalhadores. 



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Seu nome soa como uma incógnita no seio da população rondoniense. Até dentro do campus da Universidade Federal de Rondônia, que o homenageou com o título “Dr. Honoris Causa”, não é fácil achar alguém que associe o nome à pessoa. Mas nos círculos acadêmicos mais importantes, o nome de Clodomir Santos de Morais é referência obrigatória quando se entra no campo da Sociologia, em especial da capacitação e organização de populações camponesas.

Seu trabalho nessa área foi reconhecido mundialmente, ao ponto de a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a outra agência da ONU dedicada à agricultura (FAO) contratarem-no para ser Conselheiro em Capacitação e Organização de camponeses em processos de reforma agrária.

Posteriormente, ainda pela Organização das Nações Unidas, Clodomir dirigiu projetos da organização em países como Honduras, Panamá, México, Portugal. Também assessorou a reforma agrária de países como Peru, Costa Rica e Angola.

Baiano de Santa Maria da Vitória, cidadezinha a 900 km da capital Salvador, Clodomir Santos de Morais também atuou como repórter por mais de 13 anos nos Diários Associados, do então magnata das comunicações Assis Chateaubriand, e em outros jornais.

Graduado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, Morais foi deputado estadual naquele Estado e um dos líderes das Ligas Camponesas de Julião. Tais atividades acabaram lhe custando dois anos de prisão, torturas, uma longa temporada no exílio e 10 anos de direitos civis cassados – castigos aplicados pelo então incipiente regime imposto pelo Golpe Militar de 1964.

De volta à vida acadêmica, Clodomir conquistou seu doutorado em Sociologia na Universidade de Rostock, Alemanha, onde foi professor residente por quatro anos. Também foi docente emérito nas Universidades de Brasília (UNB), Autônoma de Chapingo, no México, e na Federal de Rondônia (UNIR). Além disso, já foi convidado a fazer conferências nas Universidades de Manchester (Inglaterra), Berlim (Alemanha), Wisconsin (EUA) e na maior parte das faculdades hispano-americanas.

Foi em sua casa simples, no bairro Agenor de Carvalho, que esse homem recebeu os jornalistas de Imprensa Popular Aldrin Willy e Gessi Taborda. A aparência simples e humilde de Clodomir contrasta com seu profundo conhecimento das coisas. Uma espécie de Sócrates dos nossos tempos.


INGENUIDADE

Alvo de uma sucessão de escândalos – um mais escabroso que o outro – sem paralelo na história, o nome do presidente Luis Inácio Lula da Silva, conforme as pesquisas divulgadas, segue na liderança para a disputa eleitoral que se aproxima. Como se pode explicar um fenômeno desses? Ingenuidade, ora bolas. É o que avalia Clodomir.

— O brasileiro é notadamente um povo ingênuo, extremamente ingênuo. Para se ter uma idéia, aqui se desenvolveu uma campanha para desarmar o povo. Nessa mesma época, no México, a propaganda era diferente: os mexicanos exigiam mais de uma arma por lar, duas ou três. Ora, isso nos põe numa posição de trouxa. Você pode imaginar: desarma-se o povo e deixa os bandidos todos armados.

Quando se fala de política, então, aí é que a situação é desoladora. De acordo com Clodomir, o brasileiro é “politicamente muito atrasado”. Isso porque, continua, nosso país sempre foi o último em tudo. “Aqui tudo chegou tarde. A universidade chegou em 1851, isto é o curso universitário do Recife e depois de São Paulo, mas a universidade mesmo é de 1918. Trezentos anos depois da universidade boliviana, trezentos e tantos depois da primeira do continente, que é a da República Dominicana. A segunda é da Guatemala, a terceira, do Peru. São trezentos anos de atraso.”

E é por isso que o povo é muito ingênuo. Em poucas palavras, “politicamente, você põe um chileno perto de um brasileiro, dá pena”, compara Morais. Falta ao canarinho uma tradição de luta política, algo que nunca houve, para uma compreensão mais sólida da política.


POVO NÃO QUER MUDAR

Há dois povos, diz Clodomir. Um urbano, rico, e outro pobre, das cidades e do resto do país. “Estes se contentam com alguma comida. Quer ganhar [as eleições], meta cesta-básica. Porque é gente que tem uma visão muito curta. É um país de pouca cultura política. A classe operária é muito nova. Enquanto ainda pensávamos em revolução burguesa, os argentinos já tinham feito a sua 25 anos antes. Em 1910 Buenos Aires já tinha metrô – o primeiro é da Alemanha, o segundo da Inglaterra e o terceiro daqui.”

Mais uma vez, a culpa é a carga de atraso que tem o Brasil. Enquanto países vizinhos como Chile – que tem dois –, Peru, Colômbia e Argentina – com quatro – foram premiados com algum Prêmio Nobel, o Brasil ainda não tem um sequer.

— Nós, nem com Jorge Amado e seus 50 volumes produzidos, não temos. É um problema de atraso no tempo. Jorge Amado poderia ter o prêmio Nobel, mas resolveu mudar. Saiu de uma literatura política e passou a tratar das prostitutas, aí lascou-se. O sueco não dá Prêmio Nobel para essas coisas, dá para política.

O Brasil só deixará o círculo do atraso, na opinião de Clodomir, quando “desabar esse clube que já existe aí há muito tempo de uma burguesia financeira que manda e desmanda”.


DESTAPAR DA PANELA

No entender de Clodomir, a sucessão de escândalos e falcatruas que vive o país marca o início de um processo de “purgação” do Brasil. “O destapar da panela da corrupção criou um processo que não vai parar mais”, avalia. “É o processo de transformação de uma sociedade corrupta, que foi criada muito antes, que levou vários ao suicídio, e que agora começa a se destapar”.

Mas a impunidade vai prevalecer: “Vai pegar muita gente alta, mas claro... Você sabe como é a Justiça. A Justiça é de classe, ela está no chão também, no chão.”


MST x PT

“O MST [Movimento dos Sem Terra] é mais organizado e tem mais autenticidade do que o PT [Partido dos Trabalhadores]”, sentencia Morais. Segundo ele, o movimento “é uma força poderosa” com inspiração nas Ligas Camponesas. Mas não se pode dizer que seja uma prolongação daquelas, porque “não existe repercussão na história”. “[Karl] Marx dizia ‘quando há repercussão ou é em forma de farsa ou tragédia’”.

O não combate a Lula por parte do Movimento dos Sem Terra não é obra do acaso. De acordo com Clodomir, o MST vai aguardar a eventual reeleição do presidente para começar “a pisar forte”.


PÃO E TERRA

Muito tem se perguntado se a questão da moralidade pública será decisiva na definição das eleições de outubro. O sociólogo analisa esse tema assim:

— Nunca houve revolução com a bandeira da moral. Nenhuma delas foi vitoriosa. A pequena burguesia jamais chegou ao poder porque ela se preocupa com o problema moral. As revoluções chegam ou só são vitoriosas quando levantam a bandeira de pão e terra. Mas moral, ninguém sabe o que é isso. “Corrupção” é abstrato para o homem do povo. Sem falar em cidadania, que é o “invertebrado gasoso” maior que já vi na minha vida. Ninguém sabe o que é cidadania.

As campanhas vitoriosas serão aquelas, na visão do sociólogo, que partirem para o concreto, que tratarem de fome, terra e violência. Essa última chama especial atenção para Porto Velho, que é a sexta cidade mais sangrenta do Brasil, conforme o Ministério da Justiça. “A única diferença entre Porto Velho e o Rio de Janeiro é que lá muitas pessoas morrem de balas perdidas. Aqui não, todas elas são certeiras.”

Numa pesquisa que ele desenvolveu junto aos alunos da Unir, Clodomir conta que perguntou a cada um se conhecia alguém de sua rua que já tinha sido assaltado. “92% responderam positivamente. E mais da metade disseram já terem sido assaltados”, completa. Esse quadro de violência, em sua opinião, é resultado de uma única variável: o enorme índice de desemprego.


ECOCHATOS

“São dois adversários muito grandes: a pobreza do país, de um lado, e do outro lado, os ecochatos”, assim Clodomir sintetiza a grande celeuma em torno da construção das Hidrelétricas do Rio Madeira. “Os ecochatos são ONGs pagas para isso, com que propósito há saber. Mas são ecochatos porque não se guiam por uma tese científica de que não pode haver desenvolvimento, nenhum, sem transformação da natureza. Os ecochatos são pagos para impedir os interesses nacionais, não tem outro propósito.”


SAÍDA PARA RONDÔNIA

Para o sociólogo, só haverá saída econômica para o Estado quando se começar a gerar fontes de trabalho.

— Não quer dizer que tem que vir a indústria e criar as fontes de trabalho. Nem o governo lançar mão de dinheiro e contratar as pessoas para construir a ‘Nova Mamoré’. A grande fonte de recursos está no povo. Porque na medida em que se organiza a população para gerar seus próprios postos de trabalho, você está mudando a cabeça do povo, que passa a ter confiança em si mesmo. As massas têm que confiar nelas mesmas. Enquanto o povo não se organizar, dificilmente sai do atoleiro. Mas um dia organiza, a fome o levará a fazer isso.


LULA, O OPERÁRIO QUE NÃO SABIA

Para Clodomir Santos de Morais, Lula ainda guarda resquícios dos tempos de sindicalista. “Lula não tem partido, tem povo”, diz ele.

— Para ele [Lula] o partido não significa nada. O partido faz aquelas besteiras todas de ‘mensalão’ porque são caipiras. Dirceu ainda fala “porrta”, “corrte”. Lula começou lá embaixo com os sindicatos. Quem tem povo, tem êxito. Quem não tem, fica dizendo o abstrato, fica falando dos “invertebrados gasosos”, que é o caso do Alckmin, uma coisa que ninguém entende.

Na opinião de Clodomir, Lula não permitiu os inúmeros escândalos que se desenrolaram durante seu governo. “As coisas aconteceram, porque ele não tem as rédeas do PT. Quando ele dizia ‘eu não sabia’ era sincero, porque desconhecia. Os caipiras eram mais inteligentes que ele, mais rápidos.”


ELEIÇÕES

“A figura do Lula é a única que pode fazer com que o povo se organize, apesar de grande parte dos recursos do governo federal ser destinada a esse tipo de clientelismo que se fez via igrejas evangélicas ou o que seja”, avalia Clodomir.

Para o sociólogo, Lula é o único que “crê na massa”. “Dá pena de ver entrevistas do Alckmin, ninguém entende o que ele diz”, conta.

Sobre Heloísa Helena, Morais é taxativo: “Ela ainda não tomou o rumo do seu próprio discurso. O discurso dela ainda é aquela verborréia panfletária. E o povo não entende panfleto com verborréia. Tem que falar mais para o povo de necessidade. Hoje para ganhar a eleição, seja municipal, estadual ou federal, só se pode fazer com denúncias, não com ofertas, ‘vou fazer isso e aquilo’... O povo só acredita em coisas concretas.”


O QUE É ESTADO?

Para terminar, Clodomir lembra o que é o Estado:

— O pessoal não entendeu ainda o que é o Estado. Rui Barbosa uma vez fez uma definição do Estado: “Estado é a família amplificada”. Pura besteira. Outra vez ele disse: “Estado é o povo politicamente organizado”. Outra besteira. O Estado não é nada mais, nada menos do que o mais eficiente instrumento de dominação de classe. Não é por acaso que todos lutam para ter o Estado na mão. Porque o tendo na mão, dominam todas as demais classes e os demais grupos.

Foto: Aldrin Willy


Comentários (1)
O BRASIL POR SEU ÚLTIMO MAIOR CIENTISTA SOCIAL

Um gênio das ciências sociais no mundo! Pena que no seu próprio país (pelos motivos que ele mesmo expôs nessa publicação da IMPRENSA POPULAR). Eu o conheci, convivi e pesquisei com ele, quando ele faleceu, no ano passado, estávamos preparando a publicação de uma obra conjunta sobre os maiores líderes políticos do século XX, que teria o patrocínio da Unesco. Parabenizo-lhe pela publicação. O que Clodomir afirma nessa publicação é verdade inquestionável proferida pela maior autoridade sobre política e ciências sociais do país e no mundo! Clodomir foi o único autêntico bolchevique brasileiro. Símbolo de coerência, inteligência e ética. Sem ele o país ficou totalmente e desgraçadamente pobre!

Paulo Oisiovici - Correntina/ BA.
Enviado em: 27/09/2017 13:14:00  [IP: 94.63.47.***]
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