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Porto Velho,  seg,   25/maio/2020     
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Cantinho do menestrel: Sua majestada Armandinho

23/7/2006 23:33:44
Julio Yriarte (*)
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 Hoje falarei de personagem singular, que particularmente sempre me seduziu pela sua coragem, sinceridade e habilidade. Trata-se de um músico que escreveu páginas honrosas na história da Música Popular Brasileira em Belém do Pará, Manaus e Porto Velho. O artigo é resultado de um bate papo descontraído e informal que tivemos lá no mirante III, local onde normalmente se apresenta juntamente com Carlinhos do Violão.

Sempre animado, jovial, atencioso e disposto a encantar-nos com sua musicalidade, na altura dos seus bem vividos anos, esbanja carisma e bom gosto naquilo que faz. O “velhinho com sua touquinha e seu violão elétrico não se acanha e sai na frente mostrando que a idade não lhe representa obstáculos para o desejo de expor a sua arte maior. Notarão adiante, que durante a sua vida, o amor pela música sempre falou mais alto. Ele diz: “experimentei uma única vez o trabalho convencional mas não me dei bem, queria e quero continuar músico até que Deus me doe o último suspiro. Nunca almejei riquezas, e outras benesses, assumi sim, a missão de gerar e educar meus filhos decentemente e ampliar o gosto e o sorriso das pessoas através da música. Creio, que não passei à toa pela terra. Sinto que posso dizer: Missão cumprida!”.

UM BOM BRASILEIRO

Este animal (no bom e melhor sentido) é Armando Barbosa de Souza, um baixinho, porém querido e respeitável brasileiro de cepa que nasceu em Belém do Pará num chuvoso 19 de janeiro de 1926. É pai de sete filhos (02 em Belém, 04 em Manaus e um em Porto Velho). No meio artístico é conhecido simplesmente como Armandinho.

Armandinho é um guitarrista/violonista de primeira grandeza que iniciou seu aprendizado musical aos 10 anos de idade aventurando-se nos primeiros anos no Bandolim e Cavaquinho. A sua inquietude e voracidade próprias de menino lhe renderam suculentos frutos, por um lado, o íntimo vínculo com os “paus e cordas”, e por outro, o domínio de escalas e a destreza manual, fundamentos que são afetos aos bons instrumentistas. Entretanto, não é só a habilidade técnica manual que faz do Armandinho um grande músico, o caráter também o engrandece, e tal virtude, Armandinho têm de sobra. E autodidata e mestre na aplicação de fraseados musicais que resultam numa mistura de escalas pentatônicas, assimétricas e com nuances de blues e jazz, formas musicais que caem como “luva” no estilo bossa nova, aliás, uma de suas especialidades.

A EXPERIÊNCIA PESSOAL

No decorrer de nossa conversa perguntei-lhe: quem foi seu mestre? Respondeu-me, com a sapiência de quem é dono de uma vida decente e carregada das mais honestas e atrativas experiências: “Julinho, foi Deus e meu especial desejo de aprender, a minha persistência, que creio ser própria de quem está na flor da adolescência, Lembre-se que antigamente não existiam nem os vícios, nem as tentações tecnológicas que hoje insistem em seduzir os nossos meninos, não raro, afastando-os do bom aprendizado “.

Nosso pequeno notável, saiu de Belém em 1963 rumo a Manaus com o grupo “Soberanos do Ritmo” contratado para inaugurar a famosa Boate “Las Vegas”. Acabou ficando um tempo por lá. Viaja ao Rio de Janeiro com o Violinista, Vibrafonista e cantor Fernando Borges para gravar um LP recheado de MPB. No início de 64 é convidado para integrar o quarteto do Instrumentista Alberto Mota, um conhecido Pianista de Manaus, que como novidade tocava, além do piano, o Solovox, um pequeno teclado eletrônico de 03 oitavas.

ÁGUA DO MADEIRA

Nesse mesmo ano, dito quarteto esteve em turnê em Porto Velho com apresentações marcadas no histórico Porto Velho Hotel (hoje Unir Centro) e no Cinema Lacerda.

Foi nesta turnê que Armandinho “bebeu água do Madeira”. Ficou predestinado a voltar a PVH, e voltou!, verão adiante.

MAIS EXPERIÊNCIA....

Retornando a Manaus é contratado, já no final de 1964, para uma apresentação em Boa Vista-RR. O Governador da época ficou com ele encantado e o convidou para exercer atribuições governamentais na Rádio Estadual Roraima como Sonoplasta, Diretor Artístico e Produtor Fonográfico. Esta foi sua atividade principal durante nove anos.

Em 73 retorna a Manaus onde conhece outros notáveis músicos da época, a exemplo de Nato (C. Baixista), Edson (baterista) e Gerê (Pianista, que mais tarde integraria o antológico grupo manauara “Os Embaixadores”). Conheci o Gere pessoalmente, tocamos juntos quando posteriormente “Os Embaixadores” estiveram em Porto Velho, lá pelos idos de 1978. (eu estava “fresquinho” na city, estava afiado).

O nosso personagem, em Manaus organiza ainda, o grupo Armandinho e seus Big Boys, que se tornaria bastante conhecido e requisitado nas rodas das “cabeças coroadas”, expressão que à época designava a nata da sociedade.

Acompanhou cantores de expressão nacional, tais como: Miltinho, Roberto Carlos, Silvinho, Nelson Gonçalves, Nora Ney, Jamelão, Waldick Soriano, Bienvenido Granda, Waleska, Fafá de Belém, entre tantos outros. Foi o primeiro músico de Belém a pulsar um violão elétrico aos 29 anos. Aos 33, conheceu e iniciou o namoro com a guitarra elétrica. Aí, pronto, apaixonado, não mais a largou. Criou tanta intimidade com a guitarra que se dava ao luxo de fazer malabarismos tocando peças complicadas com a guitarra nas costas!

APÓS BEBER DO MADEIRA

No ano de 1981, a convite do Pedrão do Remanso do Tucunaré fixa residência em Porto Velho e naquela peixaria se apresenta diariamente durante 08 anos, alternando apresentações em outros locais a exemplo do Roda Viva do Mikhael Esber, Chopão, Yes Banana´s, Palhoça, Caravela do Madeira, Pereas, London Bar e clubes da cidade. Conviveu e trabalhou musicalmente com músicos de Porto Velho: Erivaldo Almeida (baterirsta), Julio Yriarte (guitarrista), Sérgio Santos (baixista), Wesley Santos (baixista), Tito Freitas (o conhecido pianista “Fininho” do Caravela do Madeira, lembram?), Telêmaco (baterista), Késia (cantora QEPD), Alciréa Tabosa (cantora, esposa do Oftalmólogo Calmon Tabosa), Nonato do Cavaquinho (cavaquinhista), Teófilo Afonso (cantor e violonista), Anjos da Madrugada (grupo seresteiro), Rubens Parada (cantor latino), Orlando Surita (cantor), Carlinhos do Violão (cantor/violonista), Toninho do Sax, entre tantos outros.

NO LONDON

Lembro-me que no final da década de 80, Armandinho atuava no London Bar (Carlos Gomes, esquina com a Presidente Dutra) aos finais de semana da meia noite em diante. À época, eu tocava no grupo Ave Noturna, composto por Erivaldo Almeida (bateria), Zêga -QEPD (guitarra/voz), Sérgio Santos (C. baixo), Nádia Maria (cantora), Tito Freitas (teclado). Como é sabido, os músicos de baile, pela própria característica da festa, são obrigados a interpretar repertórios variados, tocando até músicas por eles não desejáveis.

Sendo assim, me habituei a freqüentar o London Bar após o final de cada baile por dois motivos: tomar aquela sopa e ouvir o Armandinho tocar blues e jazz com sua guitarra e eletro-ritmo madrugada adentro. Era a forma de me depurar da cansativa noite. Ele gostava da minha presença porque lhe representava uma platéia atenta e receptiva, já que são estilos de difícil compreensão e são poucos os que realmente os apreciam.

REFLEXÕES

O fenômeno de expresar-se através da arte musical, é representar o mundo não como ele é, mas, por meio da visão e sensibilidade do próprio artista. Sua percepção, sua comprensão do mundo e sua interpretação daquilo que é visível e material, nos transporta às mais inesperadas concepções e os mais extravagantes resultados líricos, poéticos de múltiplos significados.

O ser humano, ao contrário de outros animais, não é regido unicamente por consequencias biológicas, não é comandado apenas filogeneticamente, pelo mero instinto, mas sim, a partir de sua capacidade de interpretar a realidade pela qual é cercado e por construir significados para a natureza, significados que vão muito além dos percebidos banal e imediatamente.

Essa construção simbólica, é a que guia, neste caso, o Armandinho. Toda a sua ação e intenção humana se refletem e se manifestam no pulsar do seu instrumento e sua forma de expressar-se, que sem dúvida nenhuma, diria que está revestida de plena capacidade para atrair a atenção de qualquier espectador, seduzindo-o, encantando-o proporcionando-lhe momentos de infinito prazer.

Este ser é sua majestade Armandinho que desprovido de interesses nocivos continua a hipnotizar com o seu violão elétrico os frequentadores habituês do Mirante III diariamente, sempre ao lado do Carlinhos do Violão.

CONVITE

Amigos leitores, ficam desde já convidados a assistir a este monstro da Musica Popular Brasileira, a partir das 19h de 2ª a sábado, lá no Mirante III, aqui mesmo em Porto Velho.

Um abraço.

(*) Músico multiinstrumentista, compositor, arranjador, produtor cultural, graduando em Direito e consultor da Secretaria Municipal de Inclusão Social.


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