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Porto Velho,  sex,   19/julho/2019     
reportagem

Vlado: trinta anos do assassinato que mudou o Brasil

30/11/2005 02:52:52
Por Aldrin Willy - enviado especial a S. Paulo
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Na manhã do sábado de 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog experimentava as mais sórdidas práticas de tortura nas mãos dos carrascos da ditadura. Horas depois, estava morto. A indignação popular gerada por seu assassinato foi decisiva para pôr fim ao regime militar. 


 A multidão silenciosa não cabia na igreja. Apesar do terror exercido pelos militares, oito mil pessoas lotaram o culto ecumênico em memória de Herzog – com a presença de Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Rabino Henry Sobel e do reverndo James Wright – realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, na sexta-feira de 31 de outubro de 1975, seis dias após Vlado morrer sob tortura nos porões do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).

Medo, revolta e indignação pairavam no ar. Os generais deram ordem para que o ato fosse patrulhado com rigor e reprimido, se preciso, com violência. Montou-se uma operação de guerra: cerca de 500 soldados cercaram a Catedral em mais de 385 barreiras montadas pela cidade. O próprio então chefe do Regime, General Ernesto Geisel, esteve em São Paulo e só retornou a Brasília após se certificar de que a solenidade terminara sem incidentes.

Proibido pelo Regime de se manifestar, Dom Hélder Câmara (1909-1999), bispo de Olinda (PE), resumiria depois toda aquela atmosfera de terror, ódio, revolta e dor: “Há momentos em que o silêncio diz tudo”.

SÉ, 30 ANOS DEPOIS

Passados trinta anos, a Catedral da Sé recebe novamente (domingo, 23/10) o ato ecumênico que inquietou a ditadura. Lá estão, à frente no púlpito, os personagens que lá estavam há trinta anos – exceto o reverendo James Wright, já falecido. Desta vez, o número de denominações religiosas mais que quadruplicou. Mais de 15 confissões, de budistas a presbiterianos, estão representadas.

O ato está marcado para as 15h. Antes de seu início, outro grande espetáculo abre o evento: um coral com cantores de corais do mundo todo, sob a regência do maestro Martinho Lutero. A cerimônia é iniciada após um “abraço” na Catedral pelos cantores do Fórum Coral Mundial.

“TUA PRESENÇA DE MORTO INCOMODAVA”

Audálio Dantas, um dos expoentes do jornalismo no país, era presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo à época do assassinato de Vlado. A atuação do sindicato naquele momento, sob o comando de Audálio, foi decisiva para despertar a consciência nacional, denunciando as práticas nefastas do Regime Militar – antes mesmo da morte de Herzog.

É ele quem inicia a solenidade. E o faz relendo um poema – “atualizado” – escrito por ele há 29 anos, lido pela primeira vez para lembrar um ano do assassinato de Herzog.

Intitulado “Vlado: 30 anos”, o poema de Audálio comove a igreja lotada, com a presença de autoridades das várias esferas de poder, entre elas o prefeito e o governador de São Paulo – José Serra e Geraldo Alckmin.

“Faz trinta anos, Vlado. / Faz trinta anos que aqui te sepultaram. (...) Havia pressa, tua presença de morto incomodava. / E por isso ordenaram que esta terra logo te cobrisse”, recita Dantas.

“Mas a tua memória, Vlado, esta ficou pairando sobre todas as iniqüidades e gritando mais forte que o ódio insensato. / E gritando forte, muito forte, em nossas consciências. / Faz trinta anos, Vlado. / Nesse tempo, meu irmão, teu nome correu mundo como se fosse um grito. / O grito de todos os outros cujos sacrifícios conseguiram manter em silêncio”.

E assim Audálio termina o poema: “Faz trinta anos, Vlado. / Pouco tempo diante da eternidade, da luta do homem pela liberdade. / Da tua luta, que é nossa hoje e será de teus filhos amanhã.”

Dom Paulo Evaristo Arns falou logo após e lembrou o clima de tensão que viveu trinta anos atrás por, entre outros atos, ter permitido a realização do culto ecumênico em memória de Vlado na Catedral da Sé, contrariando o desejo do Regime.

O Rabino Henry Sobel, presente no ato ecumênico daquela sexta-feira de 1975, também rendeu homenagens a memória de Herzog. Ele lembrou o episódio do enterro de Vlado, o qual, por desejo da comunidade judia de São Paulo, se daria às pressas não fosse a resistência corajosa da viúva, Clarice Herzog.

Sobel, que neste dia estava no Rio de Janeiro, ordenou, por telefone, que Vlado fosse enterrado “com todas as honras a que um judeu decente tem direito”, decisão que contrariou os militares. Isso porque, de acordo com a liturgia judaica, suicidas são enterrados, no cemitério judeu, em local menos nobre como castigo pelo pecado de tirar a própria vida.

O rabino ainda conseguiu aplausos do público quando disse “não importa se são católicos, judeus, presbiterianos ou até mesmo ateus, todos temos de nos unir e dizer não à violência institucionalizada”.

FALTA DE MEMÓRIA

O ato inter-religioso realizado na Catedral da Sé em 1975, seis dias após a morte de Herzog, foi um marco. A lotação em massa de seu interior, varando para além da praça da Sé, era o retrato de um povo que acabava de acordar para a necessidade de dizer um “basta” à ditadura.

A reedição do culto ecumênico, trinta anos depois, dá uma pequena mostra de como nosso país não preserva sua memória. A Catedral estava lotada, mas no público, poucos jovens presentes. E o presidente Luis Inácio Lula da Silva, como há trinta anos, não compareceu nem enviou representante.

Mas há quem se esforce para manter viva a memória de Vlado e seu sonho de um país mais justo. O Prêmio Vladimir Herzog há 27 anos tenta fazer esse trabalho, apesar de suas limitações. Não fossem os jornalistas de 1975, que por iniciativa própria montaram uma comissão especial para organizar os eventos, o trigésimo aniversário do assassínio de Herzog passaria batido.

Para isso, José Gomes da Silva, Audálio Dantas, Fred Pessoa, entre outros, trabalharam como nunca. De seu trabalho, resultaram uma exposição de telas de importantes pintores na antiga sede do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), o Ato Inter-religioso na Catedral da Sé e outros eventos mais. Todos sob o lema “Vlado: 30 anos de vida eterna”. Outros dois eventos destacaram-se: o lançamento de uma edição especial do livro “Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil”, do jornalista Fernando Pacheco Jordão – cuja primeira edição saiu em 1979 – e a programação especial da TV Cultura – da qual Herzog era diretor de telejornalismo quando foi assassinado – sobre o trigésimo ano da morte de Vlado.

TORTURA

Quando discursou na abertura da cerimônia de entrega do Prêmio Vladimir Herzog, em 25 de outubro (data do aniversário da morte de Vlado), o grande jornalista Audálio Dantas deu o tom do que importa manter viva a memória de Herzog: “A luta de Vlado não terminou. A tortura não acabou. Ela continua a existir nas cadeias desse país afora”.

(O repórter de Imprensa Popular pôde acompanhar os eventos de “Vlado: 30 anos de uma vida eterna” graças a uma cortesia da Gol Linhas Aéreas).


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