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Porto Velho,  ter,   17/setembro/2019     
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Sem fiscalização, o centro da Capital virou uma zona

30/11/2005 02:37:40
Gessi Taborda (*)
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Parafernália de som montada em caminhões e até em motos, camelôs por toda parte, sons estridentes na porta de várias lojas, moças e rapazes distribuindo panfletos nas esquinas ou mesmo na calçada. A capital é uma cidade vítima de todo tipo de maus tratos. O centro parece uma zona. 


 Manhã de segunda feira. Como sempre, desço a ladeira da Gonçalves Dias, do lado da prefeitura, no rumo da mais importante avenida do centro de Porto Velho, a Sete de Setembro. Como em qualquer dia, também dessa vez não consigo uma vaga para estacionar o carro sem me livrar dos “pivetões” ou, como diz um primo meu, “trombadões” que ficam ali numa de “olhar carros” e com isso tomar dinheiro dos donos dos veículos, na base da intimidação. Se você não der pelo menos R$ 1,00 para o olheiro poderá ter seu automóvel riscado. Os “trombadões” viraram uma praga. Não respeitam nada, não temem nada. Sabem que a polícia – quase inexistente – quando aparece não faz nada. Não há fiscalização, ninguém combate a vadiagem.

Na estreita rua Barão do Rio Branco, ao lado daquilo que uma época foi a praça Jonathas Pedrosa, pessoas sobem e descem por seu leito carroçável numa constante coreografia de equilíbrio e malabarismo para desviar de carros e barracas do comércio informal e da pirataria que avançam sem qualquer pudor para a rua, tomando de uma vez por todas o que deveria ser o passeio público. É impossível acreditar que numa rua tão estreita, com todas aquelas barracas seja possível existir estacionamento de veículos dos dois lados. O cenário é o próprio de uma cidade sem lei, uma balbúrdia. E estacionamento se faz no ângulo oblíquo e na horizontal. Um pandemônio! E para complicar, as motocicletas estão sempre tomando conta do pedaço, do pedaço que poderia servir para o estacionamento de mais um carro.

CIDADE MALTRATADA


O porto-velhense não é um cidadão exigente. Está tão acostumado com o descaso histórico de seus dirigentes pela cidade que ao andar pelo centro parece não notar o espaço que lhe vai à volta; ensimesmado, por proteção, talvez, guarda-se de olhar a cidade que o cerca e concentra-se na busca de seu destino.

Na Sete de Setembro, nas duas praças centrais e perto dos Correios as pessoas caminham a passos largos, tendo como obstáculos camelôs por todos os lados, por todas as calçadas. São homens, mulheres, crianças e famílias quase inteiras vendendo de tudo. De grampos de cabelos, ursinhos de pelúcia, relógios falsificados, cds pirateados, cartões de telefone, lingeries, meias, cortadores de batatas, uvas, cigarros, muamba do Paraguai, sucos, saltenhas, pasteis, brinquedos, óculos...

Para qualquer lado que se olhe capta-se as cenas de maus tratos dispensados a Porto Velho. Exemplo: neste momento, um desses marmanjões que não fazem nada a não ser “olhar carro”, numa viela que dá passagem para a praça Marechal Rondon, onde fica o principal Fórum da Capital, urina tranqüilamente na parede de um prédio próximo à sede da Ceron (estatal responsável pela distribuição de energia no Estado), sem se preocupar com os que passam. Estes sim, incomodados, desviam o olhar. Não há policiamento. Na mesma rua, deitados no chão, sujos, maltrapilhos, tendo a sustentar-lhes um retalho de papelão ondulado, conversam dois “noiados”, sem futuro algum. É tudo ao Deus-dará! As pessoas não reclamam, não exigem mudanças. A cidade, enquanto espaço e história, parece não existir para elas.

POLUIÇÃO SONORA


Na Sete de Setembro, a principal avenida de Porto Velho, apercebendo-se da paisagem ao longo destaca-se a inviabilidade das sombras. Não há arborização. Em compensação há barulho. Não é o barulho de uma cidade em obras, de uma terra em construção. Não é a britadeira de ar comprimido, não é o bate-estacas de fundações colossais. É som, é tanto som junto provocando uma poluição sonora que não se distingue que grita no maior desespero. Serão as lojas com suas azucrinantes caixas de som amplificadas ou caminhões de propaganda volante que não param de rodar, acreditando que alguém com condições de consumir prestará atenção aos seus apelos gritantes. Mas há também o som dos postes. Alguém da municipalidade, talvez achando pouca a poluição provocada pelas lojas e pelos caminhões de propaganda autorizou o funcionamento da “Rádio Poste” em nossa cidade. E tome propaganda gritada. E tome forró.

Saio do Sudameris para ir ao antigo Bamerindus. Sou levado pela movimentação em ziguezague desviando das gôndolas espalhadas pelas lojas no passeio público, para anunciar em ofertas seus produtos populares. Tenho de desviar também dos camelôs, das barraquinhas e até do pessoal que espera o ônibus. Moças sem profissão barram o meu caminho para entregar panfletos de uma financeira com nome de dama de cabaré que, segundo diz, empresta dinheiro no mole, sem avalista e sem Serasa. Não há fiscais, nem da prefeitura, nem da receita, nem de nada. A pirataria come solta, o barulho é infernal...

CIDADÃO ACUADO


Se na Carlos Gomes, de qualquer lado, o transeunte tem de se espremer no estreito passeio público tomado por monstruosas placas fincadas na calçada, na Sete de Setembro ando pela avenida lotada de camelôs; de ambulantes, de gente pedindo esmolas, de personagem fantasiado de palhaço ou de animador de rua, implorando para a gente entrar nessa ou naquela loja e comprar alguma coisa. É coisa para deixar qualquer cidadão angustiado, acuado, num labirinto em que acaba tendo de caminhar na própria rua, junto ao trânsito dos veículos.

E lá vamos nós nessa cidade onde a autoridade não se faz sentir. Som de auto-falantes das lojas gerenciadas por quem acredita que pode aumentar as vendas no grito; ambulantes gritando suas promoções; caminhões parados para carga e descarga em horários absolutamente impróprios, causando um pandemônio de buzinas estridentes; cheiro de lixo que o calor faz exalar de bueiros e recipientes, cheiro de suor das pessoas que passam apressadas; cheiro de pacovas, pasteis e batatinhas que nadam em ferventes bacias de óleo; marmitas sendo comidas pelos informais das esquinas; pedestres apressados cruzando a rua fora das faixas, segurando firme seus pertences com medo dos assaltos: eis a dinâmica da vida urbana em um centro deteriorado acontecendo diante dos meus olhos.

Interesso-me pela seqüência de motos estacionadas ao longo do meio-fio. Elas tomam todos os espaços. O maior número de assaltos hoje, no centro, me diz uma cartomante tentando puxar assunto, são praticados por motoqueiros. O carro-forte também me chama a atenção. Ele estaciona como quer, de maneira irregular. E tudo parece o mais natural possível, pelo menos para a maioria de quem mora aqui.

A PERMISSIVIDADE


Uma parada na esquina da Sete de Setembro com a Marechal Deodoro. Um membro da classe dos despossuídos sai do Shopping Cidadão. Olha para uma concentração de três trombadinhas, um vestindo o idiota estilo skatista, para decretar, olhando fixamente para mim: “São todos ladrões!”. Não dou a mínima mas ele insiste, completando: “A burguesia e os políticos são podres!”. Ouço sem o menor interesse. Presto mais atenção no comentário do recepcionista de hotel, me chamando a atenção: “Meu Deus! Quanta mulher bonita”, comenta marotamente.

Um senhor de cerca de 60 anos se aproxima. Peço-lhe que opine sobre o centro. Ele trabalha ali perto, como alfaiate. “Isto aqui está uma degeneração só. E acontece por conta da permissividade do poder público em relação a não enfrentar o problema do desemprego. A construção civil não consegue dar emprego pra tanta gente sem mão de obra qualificada. Então esse pessoal se orienta em direção ao comércio informal e às contravenções, como é jogo do bicho. É por isso que o nosso centro da cidade dá origem a isso tudo, a poluição sonora e visual, à violência, à pobreza social. A noite isso aqui morre, não tem vida, somente ladrão e viciado, indigentes e mendigos. Nem as garotas de programas ficam por aqui. Estão todas na Carlos Gomes”, fala o homem para em seguida fazer cobranças às autoridades:

— Isso aqui ta reclamando há muito tempo um maior controle, uma repressão. Uma atitude mais drástica para que se restabelecesse a ordem, para que os marginais, os camelôs, os desocupados, os causadores da poluição sonora, da bagunça do trânsito. Quem precisa passar a maior parte do dia aqui no centro acaba estressado, cansado, perturbado e assustado.

Concluo que, pelo menos durante o dia, o centro está vivo, embora vivendo mal. A manhã de segunda-feira já terminou. São 13 horas e já percorri o centro quase todo, de um lugar ao outro. Descobri que a movimentação das pessoas por passeios públicos sem acessibilidade; dos carros, por ruas estreitas e sem vagas para estacionamento, do barulho infernal das lojas e dos caminhões de propaganda; tudo isso me deixa completamente agitado.

Não vejo a hora de voltar pra casa para recupera a minha serenidade, botando fé na promessa do prefeito Roberto Sobrinho, de requalificação do centro, de melhor ordenação dos espaços públicos desta cidade onde os melhores conceitos de urbanismo estão marginalizados.

(*) Jornalista, editor do jornal Imprensa Popular.


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