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Porto Velho,  dom,   17/janeiro/2021     
reportagem

Recém-nascida morre envolta em mistérios e contradições

2/10/2005 14:38:35
Por Edson Lustosa
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Mãe suspeita de erro médico da maternidade; Hospital se defende e diz que causa da morte pode ter sido má-alimentação. 


 O feriado de 7 de setembro foi mais um dia de suspense na vida da empresária Luciana Bastos Botelho, que aguarda ansiosamente o esclarecimento da morte de sua filha, ocorrido aos dois dias de vida. Enquanto a autópsia realizada no Hospital de Base se resume a apontar que houve uma “parada cárdio-respiratória” – e raros são os casos de morte em que o coração continua batendo e a pessoa respirando – o mistério permanece: a criança teria morrido em razão do mau atendimento no hospital em que foi feito o parto ou o problema estaria na forma como foi alimentada depois que foi para casa?

Luciana fez o pré-natal com o médico Romualdo Lima: “Realizei todos os exames por ele solicitados e várias ultra-sonografias por se tratar de uma gravidez de gêmeos; com aproximadamente nove semanas de gestação, um morreu; tratava-se, portanto, de uma gravidez delicada”. A última vez que foi examinada por aquele médico foi em 10 de agosto, no consultório dele no hospital Regina Paccis. Foi então que ele constatou que ela já podia se submeter à cesariana. Eram 14h30 e ele marcou a cirurgia para às 15h30 do mesmo dia.

Luciana, acompanhada de sua mãe e de seu irmão, chegou pontualmente ao hospital. Fez então o pagamento de um pacote oferecido pelo Madre Mazzarello no valor de R$ 720,00, que incluía hospital, anestesista, instrumentadora e pediatra. Imediatamente foi internada. E ali, segundo ela, começou a constatar que havia fechado um mau negócio.

Desde os procedimentos depilatórios – executados de forma constrangedora – até quando lhe colocaram o soro, tudo teria sido feito com muita pressa, já que o médico cobrava insistentemente sua ida para o centro cirúrgico, alegando ter outros compromissos. Diz Luciana: “A pressa foi tanta que, mesmo eu cobrando a presença do pediatra, a cesariana foi realizada por volta das 16h30, ficando eu e minha filha aos cuidados de uma só pessoa, a instrumentadora; demoramos muito a sair do centro cirúrgico; e eu sempre perguntando pelo pediatra, que diziam já estar chegando.”

ARROXEADA

Luciana conta que não dormiu em nenhum instante, preocupada com a filha. Segundo ela, a negligência era tão grande que ficou por mais de duas horas com a sonda fechada, apesar de suas reclamações de estar sentindo dores constantes. Somente e enfermeira do plantão noturno detectou o problema. E quando sua filha veio, não quiseram dar-lhe banho, alegando troca de turno. Luciana observou que a neném estava com as mãos e o rosto um pouco roxos. Os enfermeiros diziam que era frio. A criança mamou muito pouco e quase não chorava.

No dia seguinte, por volta das 9h00, apareceu a pediatra Glauciane Barboza. Luciana diz que a questionou de imediato quanto a sua ausência na hora do parto, no que a médica lhes teria respondido que estava de plantão em um outro hospital e que faria o ressarcimento dos R$ 100,00 referentes ao seu trabalho na hora do parto. De fato, o valor foi devolvido. Mas Luciana diz ter esclarecido à médica que sua preocupação não era quanto ao dinheiro, mas sim quanto a presença da médica na hora do parto. Segundo Luciana, a médica prosseguiu com ar indiferença, dizendo ter que examinar a recém-nascida para dar-lhe alta. Escutou o coração e o pulmão e afirmou: “O coração está ótimo; e o pulmão, limpo”. A pediatra então deu alta à criança, que permaneceu no hospital até que a mãe também recebesse alta, o que ocorreu às 17h30 daquele dia.

GEMIDOS

Chegando em casa, Luciana se preparava para os momentos de felicidade de toda nova mãe. Quartinho da bebê arrumado, enxoval todo pronto, enfim um clima de alegria na casa que ganhava uma nova moradora. Mas toda aquela energia positiva se dissipava com o choro da criança que em seguida passou a gemer dolorosamente. Eram 21h00. Desesperada e ainda se recuperando da cirurgia, a mãe levou correndo a filha para o Hospital da Ameron, na avenida Carlos Gomes. Ali a criança chegou já muito fraca, desfalecendo, com a temperatura muito baixa. Todo os esforços foram feitos pela equipe do pronto-atendimento, chefiada pela médica Hanem Abdul, que de imediato falou que a criança não tinha sido submetida à aspiração do líquido amniótico contido no pulmão; pois havia muito líquido, secreção e até sangue no pulmão da bebê. Foi então solicitada uma UTI móvel para levá-la ao Hospital de Base, o que foi imediatamente providenciado. Embora o problema já estivesse muito avançado, a criança ainda chegou a ser levada com vida ao HB. E resisitiu ainda até às 23h25, quando finalmente faleceu.

MISTÉRIO E CONTRADIÇÕES

Luciana conta que a médica de plantão no Hospital de Base informou que não era possível afirmar qual tinha sido a causa da morte da bebê, apesar de constar no prontuário da Ameron que tinha ocorrido a falta de aspiração na hora do parto. Entretanto, passada mais de uma semana, aguardava-se ainda a identificação da causa da morte. Para surpresa de muitos, o documento emitido a partir da autópsia falava apenas em parada cárdio-respiratória. O que configura muito mais um resultado do que causa da morte.

A direção do Hospital Madre Mazzarello, em contato com a reportagem da Imprensa Popular, afirmou que não é de se crer que tenha havido embolia pulmonar ou outra conseqüência de uma suposta falta de aspiração do líquido amniótico contido nos pulmões. Disse ainda o médico Luiz Augusto que a ausência de um pediatra não é fator determinante da qualidade de um serviço de cesariana, já que também o anestesista é habilitado a suprir a necessidade de atenção ao recém-nascido. Segundo ele o quadro apresentado indica mais a possibilidade de uma hipoglicemia abaixo do nível 40, ou seja, irreversível. O que poderia ser decorrente de uma inobservância dos procedimentos recomendados para alimentar corretamente a recém-nascida. Quanto aos serviços prestados pelo Hospital Madre Mazzarello, ele afirmou que a avó da criança dispensou os serviços da pediatra, recebendo de volta o dinheiro. Mas, mesmo assim, a pediatra fez questão de examinar a criança, quando atestou que ela se encontrava em excelentes condições para deixar o hospital. “Só posso falar do que foi feito aqui no hospital, não posso garantir nada quanto ao que fizeram com a criança depois que a tiraram daqui”, afirmou o médico Luiz Augusto.

Outro que opinou sobre o caso foi o atual secretário municipal de saúde, que é também pediatra. Na opinião do médico Silas Rosa é pouca a probabilidade de que a presença de líquido amniótico nos pulmões leve a óbito: “Sabemos de casos de crianças que, mesmo com a presença do líquido nos pulmões, tiveram um desenvolvimento perfeito, sem qualquer espécie de problema decorrente disso, cresceram saudáveis e se tornaram indivíduos produtivos para a sociedade”.

O Ministério Público está acompanhando as investigações do caso. A ocorrência foi registrada na 3ª Delegacia de Polícia de Porto Velho.


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