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opinião

Coluna 'Cantinho do Menestrel': O terrorismo e a filha do pastor

29/8/2005 15:27:22
Julio Yriarte (*)
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 Na realidade eu come√ßaria de outra forma, mas seguirei esta linha: meu grande irm√£o e Escritor, Cronista, Poeta e companheiro do curso de Direito ANTONIO SERPA DO AMARAL (Basinho) endere√ßou-me um e-mail, justamente na hora que estaria a viajar pela minha pr√≥xima mat√©ria. Como o achei interessante, abro m√£o das minhas √ļltimas locupleta√ß√Ķes e investiga√ß√Ķes, e cedo o espa√ßo para esta interessante mensagem.

Hoje meu foco seria o Samba, a Universidade e algumas sacanagens ocorridas e j√° detectadas no Sistema ‚ÄúSS‚ÄĚ, com foco no SESC e no SENAC. Deixarei para as pr√≥ximas mat√©rias. Leiam porque tem muito assunto! Na pr√≥xima mat√©ria publicarei uma conclama√ß√£o que um juiz me fez via E-Mail

Por enquanto, desliguem-se e prestem atenção na análise do Basinho. Ei-la:

DEUS E O 11 DE SETEMBRO, NA WEB

O atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001 est√° sendo explicado na Internet pela filha de Billy Graham, um pastor protestante do g√™nero mass m√≠dia. Est√° sendo veiculado na web que, em entrevista ao Early Show, da TV Americana, Anne Graham disse que o povo norte-americano esqueceu de Deus e, al√©m disso, j√° n√£o se faz ora√ß√Ķes nem a leitura da B√≠blia nas escolas americanas, as mulheres est√£o fazendo aborto e os adolescentes usando camisinha naquele pa√≠s. Resultado: as torres vieram abaixo.

Essa versão revela claramente a faceta danosa da ideologia da fé, quando constrói o seguinte silogismo falacioso em torno do 11 de Setembro: Deus abandona à própria sorte os que não o reverenciam (premissa maior); o povo norte-americano não o reverenciou (premissa menor); Deus o abandonou, e daí o aconteceu o 11 de Setembro. (conclusão).

Em outras palavras, o 11 de Setembro, na vis√£o m√≠ope e alienada do crente, tem causa n√£o em um conjunto de elementos essencialmente humanos que movem as roldanas da Hist√≥ria, mas tem causa na rela√ß√£o homem-Deus. √Č a√≠, nesse olhar, nessa interpreta√ß√£o e nessa prega√ß√£o metaf√≠sica, que reside o perigo. Ora, vendo o mesmo 11 de Setembro sob a √≥tica do Islamismo, temos a seguinte vers√£o: Deus est√° usando a Al Qaeda para fazer justi√ßa ao Imperialismo Norte-Americano e √† opress√£o Ocidental! Deus escolheu Osama Bin Laden o justiceiro dos novos tempos, Deus aben√ßoa os guerreiros do Isl√£ e d√° morte justa aos infi√©is! Em nome desse Deus os homens-bomba sacrificam vidas humanas diariamente, pois ter√£o como recompensa, diz-lhes a ideologia isl√Ęmica, 20 virgens do c√©u de Al√°.

A f√© do crente mu√ßulmano √© t√£o verdadeira e intensa quanto a f√© do crente crist√£o, protestante ou cat√≥lico. Ambos os crentes invocam uma divindade transcendental. Na verdade, segundo a subjetividade e a cultura de cada grupo de crente, cada um forja um Deus √† imagem e semelhan√ßa dos seus valores, tradi√ß√Ķes, costumes, organiza√ß√£o social etc, isto √©, o Homem √© quem cria Deus. Esse √© problema e o perigo da f√©: ela n√£o se volta unicamente para a divindade invocada. Fosse assim, seria uma maravilha. Todavia, o fen√īmeno da f√© transborda do mundo do mist√©rio e da cren√ßa em si mesma para os elementos concretos que perfazem a vida social, pol√≠tica, econ√īmica e cultural do Homem. √Č a√≠ que o bicho pega, e t√° feito o imbr√≥glio.

Sen√£o, vejamos. Anne alinhava os seguintes assuntos da vida terrena: N√ÉO FAZER ORA√á√ÉO NAS ESCOLAS. Deduz-se que sejam escolas da rede p√ļblica de ensino, pois nas escolas de voca√ß√£o religiosa as ora√ß√Ķes s√£o feitas normalmente. Ora, a escola p√ļblica pertence ao Estado, e o Estado, na democracia burguesa, √© um ente laico, e n√£o poderia ser de outra forma. O Estado n√£o tem Deus, o poder constituinte do Estado n√£o adv√©m de Deus, e o Estado n√£o √© concebido em nome de Deus. O Estado Burgu√™s foi constru√≠do a sangue e luta justamente para negar o Estado Feudal, esse, sim, erigido em nome de Deus. Pela argumenta√ß√£o da crente, deduz-se que, j√° que n√£o houve ora√ß√£o nas escolas, Deus fez vistas grossas aos desmandos de Osama Bin Laden, e o povo norte-americano caiu em desgra√ßa.

N√£o tem nada mais medievalesco do que isso. √Č uma vis√£o tosca, infantil, de quem n√£o tem um m√≠nimo de leitura hist√≥rica da marcha humana. O Estado, a Religi√£o e o Poder Pol√≠tico j√° foram outrora uma s√≥ entidade. Ainda hoje temos resqu√≠cio do Estado Teocr√°tico no Ir√£. Recentemente, no Afeganist√£o, os norte-americanos desmontaram o projeto do Estado Teocr√°tico dos Talib√£s. Um Estado laico que assegure a todos a liberdade de cren√ßa √© uma conquista do mundo moderno. Portanto, se o governo norte-americano proibiu a ora√ß√£o na escola do Estado, agiu certo. O Estado √© ente j√ļris-pol√≠tico. Misturar Deus com Estado √© como fazer um ensopado dos 10 Mandamentos com o Ordenamento Jur√≠dico P√°trio. O Estado √© o Estado. Deus √© Deus. Separar um do outro nos custou o Renascimento, o Iluminismo e a Revolu√ß√£o Francesa. Vamos retroceder agora??

O uso de camisinhas seria outra causa do ataque terrorista. Infere-se do texto que o 11 de Setembro tamb√©m tem a ver com o fato da juventude norte-americana estar usando camisinha. E quando se fala em camisinha fala-se em sexo, moral. Vejamos qual √© a verdadeira moral do mundo: O Deus de Bento XVI acha que √© um pecado usar camisinha. O Deus dos padres engajados em movimentos sociais aprova a camisinha. O Deus dos Protestantes mais conservadores acha que ela √© o fim do mundo. O Deus dos Protestantes mais liberais acha n√£o h√° pecado no uso de preservativo. O Deus do Islamismo ortodoxo acha que camisinha √© coisa do dem√īnio ocidental. As 24 milh√Ķes de pessoas infectadas pela Aids na √Āfrica esperam que os Deuses entrem logo em acordo porque, n√£o bastasse a fome, dezenas de pessoas morrem diariamente da doen√ßa naquele continente.

Ali√°s, do ponto de vista focado por Anne, pergunta-se: o que foi mesmo que os coitados dos africanos fizeram seja ao Deus crist√£o, seja ao Deus do isl√£, seja ao Deus da umbanda, para que viver de forma t√£o fam√©lica, sub-humana e degradante? Enquanto o crente est√° l√° na sua Sinagoga, ou na sua Igreja, ou no seu Templo, ou no seu Terreiro, fazendo suas ora√ß√Ķes e prestando suas rever√™ncias ao seu Deus, est√° tudo bem. Mas quando o olhar desse crente se prop√Ķe a substituir o pensamento anal√≠tico do soci√≥logo, o julgamento ponderado do jurista, a explica√ß√£o cient√≠fica do Historiador, a√≠ a f√© torna-se nefasta porque ela sai da sua dimens√£o original e passa a querer legislar e administrar numa seara que prescinde da concep√ß√£o de Deus. O olhar do crente √© absolutamente vesgo, n√£o serve para explicar o mundo. √Č um olhar constru√≠do em nome de Deus, ou dos Deuses, mas por ser intrinsecamente parcial, alienado, comprometido, n√£o √© ferramenta confi√°vel para oferecer explica√ß√Ķes sobre os fen√īmenos da vida. A discord√Ęncia deste articulista est√° assentada nesse m√©rito. N√£o estou dizendo que Deus √© feio ou √© bonito. Reconhe√ßo a F√© como Bem da Humanidade. Mas criticamente observo que, ao ser utilizada ideologicamente, a f√© presta um des-servi√ßo ao Homem.

Falta autocr√≠tica e falta dose de humildade a todas as correntes religiosas. Cada uma delas se arvora dona da Verdade. Cada uma delas se julga a √ļnica reveladora do pensamento divino. S√£o obras temporais da cultura, do espa√ßo e do tempo. Deus possivelmente encontra-se algumas calendas-luz mais pra l√°!!

ANT√ĒNIO SERPA DO AMARAL

(*) Julio Yriarte √© m√ļsico, produtor cultural e acad√™mico de Direito.


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