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reportagem

No fundo, o PT perdeu

15/11/2004 17:40:06
Por Emir Sader
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O governo petista saiu enfraquecido não apenas pela perda de prefeituras importantes, mas também porque seu marco de alianças partidárias de apoio se debilitou. 


 Quem foi derrotado nas eleições municipais deste ano? Em primeiro lugar o governo federal. Depois de quatro tentativas, Lula conseguiu se eleger presidente da República e na primeira eleição, o PT, pela primeira vez em sua história, regrediu e sofreu a sua maior derrota. O partido perdeu os governos de São Paulo, de Porto Alegre, de Belém, Goiânia, Campinas, Ribeirão Preto, Caxias do Sul e Pelotas, entre outras cidades importantes anteriormente governadas pelo PT. Essas perdas são regressões reais, pelo trabalho que os governos municipais do partido vinham desenvolvendo - há 16 anos em Porto Alegre, há 8 anos em Belém, Caxias do Sul e Ribeirão Preto.

A reeleição em Belo Horizonte, Recife, Aracajú, Santo André, Guarulhos, Diadema, Niterói, e as vitórias em Fortaleza, Macapá, Palmas, Porto Velho, Osasco, Londrina e Contagem, não compensam, nem de longe, as derrotas. A disputa em São Paulo, capital política do PT e do PSDB, além de ter visto o triunfo do candidato derrotado por Lula em 2002, têm também um significado político irreparável para o governo federal. Os candidatos que mais diretamente tiveram o apoio do núcleo central do governo federal - em Salvador, no Rio de Janeiro, em Ribeirão Preto, em São Bernardo, em São Paulo - foram todos derrotados, fragorosamente nos três primeiros casos.

O governo sai enfraquecido não apenas pela perda de prefeituras importantes, mas também porque seu marco de alianças partidárias de apoio se debilitou. O PMDB, maior aliado da base de apoio do governo, protagonizou abertamente a frente opositora, enquanto outros partidos menores - como o PPS - definiram claramente sua opção por essa frente.

Perde o PT como partido. A estratégia do seu atual presidente, José Genoino, foi desastrosa. Sua indicação para dirigir o partido significou a anestesia do partido e de sua militância, tratando de passar a idéia de que o único sujeito político no país é o governo, que este é o governo do PT e que a única coisa que caberia ao PT seria apoiar ao governo. Ele representa muito mais um representante do governo diante do PT, do que um representante do PT diante do governo. A falta absoluta de simpatia da militância - especialmente da militância de base e dos movimentos sociais - com Genoino completa o quadro de total dissonância entre a militância do partido e a direção do Partido dos Trabalhadores.

Genoino se propôs a construir o eixo da base de apoio partidário ao governo na aliança do PT com o PMDB, apoiados por um amplo espectro, que contaria com o PC do B, o PSB, à esquerda, o PL, o PTB, o PPS, o PP, ao centro e à direita. Esse bloco não funcionou e o PT se viu totalmente isolado por frentes opositoras - como foram os casos mais evidentes em São Paulo e em Porto Alegre.

A estratégia de propaganda fracassou também completamente. O uso de marqueteiros não significou maior eficiência nas campanhas, perdendo ao mesmo tempo conteúdo político. A chamada "profissionalização", por sua vez, contratando grande quantidade de pessoas para a propaganda, não substituiu a marcante ausência da militância petista nas ruas. Esta foi tão clara, que nos dias finais, ao contrário do que sempre havia existido, não houve uma "onda vermelha", que mudava os resultados favoravelmente ao PT pela ação maciça dos militantes organizados nas ruas, os resultados foram quase todos alterados contra o PT - perdendo por margens maiores do que as pesquisas indicavam ou perdeu quase todas as eleições equilibradas.

A decepção com o governo Lula e o amortecimento do debate partidário levaram à perda da alma petista, substituída por campanhas profissionais, similares às de outros partidos. A direção do PT anestesiou um partido acostumado ao debate e à mobilização de rua.

Perdeu a esquerda. Antes de tudo porque foram derrotadas experiências de governos com políticas de promoção da prioridade do social e levando a cabo, em diferentes graus políticas de orçamento participativo. Modelos de governo alternativos aos postos em prática pelo governo federal - de que os casos de Porto Alegre, Belém, São Paulo, são claros - foram derrotados.

Perdeu também porque as derrotas do governo foram capitalizadas pela direita, que se fortaleceu, e não por forças mais à esquerda. Essas, ao contrário, tiveram uma decepção tão inexpressiva quanto costumam ter, enquanto o novo protagonista - o PSOL -, terminou se ausentando oficialmente, pelas divergências internas para apoios a candidatos, enquanto intelectuais ligados ao partido pregaram o voto nulo em São Paulo, considerando que as duas candidaturas representariam o mesmo para a cidade e considerando as políticas sociais do governo do PT - de Marcio Pochman, Aldaiza Sposati, dos Centros de Educação Unifi cados (CEUS) - políticas "assistencialistas". Da mesma forma que em Porto Alegre os membros do PSOL fizeram campanha pelo voto nulo diante das candidaturas de Raul Ponte da oposição de direita, revelando a forte propensão a não ter orientação própria, mas a nortear-se perigosamente pelo "antipetismo".
Perdeu também a esquerda porque as campanhas foram desmobilizadas, com ausência quase absoluta da militância nas ruas, com o deslocamento do eleitorado - especialmente o de classe média - para a direita, arrastando camadas populares nesse movimento. As campanhas de rua continuam a ser substituídas por campanhas midiáticas e por outdoors. Os movimentos sociais estiveram praticamente ausentes das campanhas, embora em geral apoiando as candidaturas do PT.

O debate das campanhas tampouco se centrou nos temas essenciais, revelando o avanço da despolitização produzida pelo governo Lula e pela ação desmobilizadora da mídia. A mídia alternativa teve pouca capacidade de expressão, sucumbindo diante da avassaladora ação da grande mídia - escrita e televisiva. A luta neoliberal no seu conjunto - aquela que define os campos fundamentais de força no momento atual - não saiu fortalecida. Perdeu governos importantes, não viu seus temas debatidos, nem processos de mobilização e organização popular avançaram.
Além disso, as derrotas sofridas não permitem prever que as mudanças - de ministério e de orientação - do governo Lula se dêem na direção da esquerda, mas provavelmente se concentrem em recompor as alianças ao centro e à direita, já na perspectiva da luta pela reeleição presidencial em 2006. Os inevitáveis balanços internos do PT podem ser contaminados pelas lutas internas também na perspectiva das eleições para governador e senadores em 2006, impedindo que o partido possa encarar seu primeiro grande recuo, produto da derrota sofrida nas eleições municipais.

Dificilmente será encarada a substituição do atual presidente do partido, o que poderia representar um aceno para uma maior possibilidade de debate e de mobilização interna da militância.

Neste marco, para a esquerda se coloca com maior força a necessidade de construção de uma ampla frente antineoliberal, que agrupe forças na luta de resistência contra a hegemonia liberal no governo e na sociedade, que conte com os movimentos sociais, com uma bancada parlamentar, com militantes de dentro e de fora do PT e de outros partidos, com intelectuais, organizações civis, imprensa alternativa, para a construção de uma plataforma pós-neoliberal, que oriente a luta do movimento popular e democrático. A luta por um outro Brasil possível é o que pode recuperar para a esquerda seu perfil e para o país uma alternativa à hegemonia neoliberal.
* O autor é professor da UFRJ e da Usp.


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