Anuncie:  

Debate do Mês

Data: 20/5/2011

Que benefício trará para o povo a ida de deputados rondonienses para Santa Catarina?



Colunistas
Receba as matérias do site em seu e-mail

Cadastrar
Cancelar Cadastro

 

Porto Velho,  seg,   27/janeiro/2020     
política

Com vocês, de volta, Gloria Trevi

12/10/2004 10:10:07
Por Maria Helena Passos
Comente     versão para impressão     mandar para um amigo    



Ela volta às rádios do México nesta segunda-feira, cantando com toda a força os versos que compôs na prisão:

“En medio de la tempestad/ En contra de la furia del mar/y de los cuatro elementos/ya no voy a fallar/yo estoy aqui/yo soy así/tierra firme para ti/que vienga más,/que estalle el volcán /que caiga el granizo
y que venga huracán/que venga más,
nada me hace doblarmira/en el infinito/hay algo de eternidad”

Ou, em tradução livre para o português:

“No meio da tempestade/contra a fúria do mar/e dos quatro elementos/eu não vou falhar,/eu sou assim,/terra firme para você,
que venha mais,/que irrompa o vulcão/que caia granizo,/que venha um furacão,/que venha mais ainda,/nada me faz mudar o olhar,/no infinito/há algo de eternidade” 


 Ela é a cantora Gloria Trevi, aquela que quase casou com um diplomata brasileiro, ficou grávida na cadeia em Brasília, e, procurada pela Justiça de seu país como suspeita de violação, rapto e corrupção de menores, tentou obter em vão das autoridades brasileiras o status de refugiada. No embalo roqueiro de baixo, guitarra e bateria, “En medio de la tempestad” é o cartão de visitas da nova Gloria Trevi, absolvida, há menos de três semanas, pelo juiz Javier Pineda Arzola, da sétima vara penal de Chihuahua, estado do norte do México.

Cadeia no Brasil

Tendo fugido para o Brasil quando a polícia de seu país a procurava, Gloria Trevi ficou mais da metade dos quatro anos e meio em que esteve detida sob a guarda da Superintendência da Polícia Federal de Brasília, no presídio da Papuda. Extraditada para o México em 2002, por decisão do STJ, a cantora deixou o Brasil com um filho gerado no cárcere. O pai, identificado por teste de DNA, é o seu descobridor e empresário Sergio Andrade, mas a cantora tinha acusado policiais brasileiros de violentá-la na prisão, atribuindo a paternidade a um deles. Do Brasil, ela levou outra triste lembrança: a morte de uma filha, ainda bebê, enquanto viviam clandestinamente em um apartamento de Copacabana, no Rio.

Foi ali que a polícia brasileira a deteve, junto com Andrade. Eles moravam em companhia de três adolescentes e uma criança. Há duas semanas, o advogado da cantora anunciou que sua cliente pretende processar o governo brasileiro por perdas e danos. O motivo? Mantê-la presa indevidamente enquanto poderia estar faturando milhões de dólares com as suas músicas. Por mais discutível que seja a intenção do advogado, pois Gloria Trevi foi presa a pedido da Interpol e ficou encarcerada até que seu pedido de refúgio fosse decidido e a extradição solicitada pelas autoridades mexicanas, em um ponto ele tem razão: a cantora foi sempre uma grande fonte de dinheiro e tudo indica que continua sendo.

A nova canção, “En medio de la tempestad”, é apenas o aperitivo do novo disco que ela lançará no próximo mês, pela mesma gravadora que lançou uma dezena de discos seus antes da prisão - a BMG Ariola. Inicia-se, pois, nesta segunda-feira, o que promete ser o retorno triunfal da cidadã Gloria de los Angeles Trevino Ruiz, hoje com 36 anos, ao show business mexicano. Com sua irreverência desmesurada, ela surgiu como um furacão nos anos 90 em um país que se preparava para eleger a oposição depois de sete décadas de poder unipartidário exercido pelo PRI. Gloria Trevi levava o público jovem ao delírio e, segundo as denúncias que acabaram por levá-la à prisão, se enredou em histórias com fãs adolescentes que a fariam uma espécie de Michael Jackson de saias.

Sua mensagem libertária colocava o machismo latino contra a parede e, por isso, ganhou a bênção de expoentes da intelectualidade mexicana, como os escritores Elena Poniatowska e seu colega Carlos Monsivaes. Na largada da carreira, Gloria Trevi assinou contratos quase simultâneos com a TV Azteca, a segunda emissora mexicana, e a líder Televisa. Preferiu cumprir o acordo apenas com a Televisa, mas isso não a impediria, mais tarde, de voltar a flertar com a TV Azteca, enquanto fazia críticas à casa que lhe deu o empurrão capital para galgar o estrelato. Foi para a Azteca, mas nem por isso fechou as portas na Televisa.

Em 1996, graças ao sucesso de sempre, a cantora e seu produtor voltaram com liberdade total para produzir o último programa da dupla. Embolsaram US$ 8 milhões e produziram o “XETU Remix”, que ia ao ar das 9 às 10 da noite. A estrela estreou montada em arreios, pendurada por um cabo de aço, gritando e sorrindo, como registrou o repórter de “La Jornada”, Arturo García Hernández, um dos poucos jornais que cobrem com algum espírito crítico o mundo artístico mexicano, numa reportagem publicada em 1998: “Às segundas-feiras, o programa apresentava um concurso no qual os participantes apareciam sentados em dois sofás pendurados no teto e sobre uma enorme bacia de água. A cada um, cabia responder a perguntas de Gloria. Quem acertava, era premiado. Quem errava, era derrubado n’água e recebia sobre sua cabeça leite com cereais, chocolates e outros ingredientes, que provocavam uma imagem de repugnância.” Sergio Andrade, produtor do programa, mandou mudar a substância por “merda e vômito”. A direção da tevê disse, então, seu primeiro não à dupla.

Já vão longe os tempos em que Gloria Trevi parecia acima do bem e do mal e podia sonhar com muito mais do que a crítica musical a usos e costumes mexicanos. No auge da carreira, entrevistada na televisão por Poniatowska, declarou que sonhava com a presidência da República para fazer algo mais pelo povo de seu país do que lhe permitia a condição de artista. É, no entanto, pela retomada da carreira artística que ela volta a ser figura reconhecida em seu país.

Instalado num dos quatro blocos de edifícios da Televisa na Cidade do México, o produtor Juan Osorio Ortiz empenha-se agora em levá-la de volta à emissora a presidiária recém libertada. Sempre agitado, Ortiz não pára um segundo enquanto explica a NoMínimo que Gloria Trevi escolherá o que quer fazer no retorno à Televisa. Pode ser uma novela, um programa de entretenimento ou simples participação em programas musicais. Ele está certo de que ela será novamente um sucesso – inclusive, internacionalmente.

Ortiz convenceu-se de que o público também absolveu a cantora ao ver a multidão, de todas as idades, lotar a igreja de Monterrey e seus arredores quando ela apareceu em público, pela primeira vez desde que saiu da prisão, para agradecer a Deus a retomada da liberdade. O que ele quer mesmo produzir é uma novela na qual ela interpretaria o papel de... Gloria Trevi. Diz o produtor da Televisa que poucos conhecem realmente a história da cantora.

Mais do que dinheiro

De fato. Como mito que é, Glória Trevi sempre soube esconder sua vida privada. Nem os jornalistas conheciam, por exemplo, seu endereço residencial. “Isso sempre foi assim. Ela aparecia nos lugares mais inusitados para dar entrevistas coletivas e dizia que mudava de casa do dia para a noite”, conta a colunista Martha Figueiroa, vinte anos de profissão, publicada atualmente pelo mais novo fenômeno editorial da imprensa mexicana, o jornal “Reforma”.

Marta Figueiroa define Gloria Trevi “como um ser autista, sempre ausente nos contactos mantidos fora das coletivas, mas inteligente o bastante para saber o que fazia quando foi envolvida por Sergio Andrade em casos um tanto nebulosos”. A colunista chegou a publicar um artigo com o título “Quero saber a verdade” em que lamenta que, ao tratar o caso Trevi com as tintas da concorrência, as emissoras de televisão do México pouco tenham esclarecido a população.

O escândalo Trevi estourou em abril de 1988, quando uma das cantoras que a acompanhavam no coro denunciou a atormentada relação entre a cantora e seu descobridor. Seguiram-se relatos de outras participantes do grupo dizendo-se exploradas por Sergio Andrade e sua amante. Pouco depois, ambos foram acusados na Justiça de Chihuahua pelos pais da tecladista Karina Yapor Gómez, menor de idade que teria sido aliciada pela cantora para fazer parte de grupo de adolescentes submetidos à exploração sexual.

O juiz Juan Rodriguez Zubiate acatou a denúncia e mandou prender Gloria Trevi e Sergio Andrade. Desde então, o processo passou pela mão de vários juízes. Só Javier Pineda Arzola o julgou. A decisão saiu no apagar das luzes do mandato do priista Patricio Martinez à frente de Chihuahua, estado de eleitorado conservador que, no entanto, já produziu oposicionistas do quilate de um Pancho Villa e abrigou Benito Juarez na época da invasão francesa.

O incômodo caso Trevi não era uma herança que o sucessor de Martinez, o também priista Reyes Baeza, gostaria de receber. “Tudo indica que absolvição de Gloria Trevi, pelo que pude apurar, contou com o empenho do novo governador”, diz o jornalista Alejandro Gutiérrez, da revista semanal “Processo”. No cargo há poucos dias, Baeza deve escolher o novo procurador estadual de uma lista tríplice de nomes da qual consta o da esposa do juiz que soltou a cantora mexicana. A procuradoria atual está recorrendo da decisão de libertar a cantora.

Enquanto sua maior criação reinicia a carreira, Sergio Andrade permanece detido. Ainda é cedo para saber até que ponto a política influenciou a absolvição de Gloria Trevi. “Trevi não é Cantinflas”, registra o senador Juan José Rodriguez Pratz, do Partido Acción Nacional, invocando o passado do humorista do cinema em que os mexicanos votavam em massa nos anos 50. “Além disso, o país não é mais o mesmo. Nas últimas eleições parlamentares federais, nenhum artista se elegeu”, informa. E se a cantora quiser apoiar algum candidato na próxima campanha? “Bem, com a forca da Televisa, nenhum político a recusaria”, admite o senador panista. “Seria um furacão de votos.”

Que ninguém se espante, então, se a atual imagem de vítima transformar Gloria Trevi em algo mais do que uma inesgotável fonte de dinheiro na vida mexicana.

Fonte: NoMinimo - www.nominimo.com.br


Nenhum comentário sobre esta matéria

Mais Notícias
Publicidade: