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Porto Velho,  sex,   23/agosto/2019     
reportagem

Polêmica justificada: Globo quer contar história da Madeira-Mamoré filmando no Acre

9/9/2004 13:20:39
Por Nelson Townes de Castro
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As filmagens ainda não começaram, os “sets” ainda não foram montados, em Abunã e no Yata, e moradores de Porto Velho já estão torcendo o nariz para a mini série que a Rede Globo de Televisão pretende gravar em Rondônia sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. 


 A maior queixa é contra uma aparente falta de preocupação da Globo com a história verdadeira da Madeira-Mamoré.

“A construção dessa ferrovia é a última grande aventura do ser humano sobre o planeta” – diz Eliane, antiga moradora da cidade. “Não podemos aceitar que uma rede de televisão distorça nossa história num seriado de exibição nacional.”


“AFRONTA”

Basear a mini série numa ficção como a contada pelo escritor Márcio Souza, no livro “Mad Maria”, está sendo visto como uma “afronta” ao épico mundial que a história da lendária ferrovia representa.

O escritor Márcio Souza simplesmente conta a história de um engenheiro americano que enfrenta as dificuldades da “Reta do Abunã”, um trecho da ferrovia construído sobre um pântano infestado pela malária, enquanto se apaixona por uma bela pianista boliviana que mora no outro lado da fronteira.

O que também causa inquietações é a notícia de que a mini série sobre a ferrovia terá locações no Estado do Acre. “A história da Madeira-Mamoré não tem nada a ver com a história do Acre. O inverso é verdadeiro mas se limita ao Tratado de Petrópolis” – acrescenta Eliane.


ORIGEM

A Madeira-Mamoré é um empreendimento de origem boliviano-norte americana que se consolidou em conseqüência da Guerra do Paraguai.

Ela representou o primeiro empreendimento comercial-tecnológico dos Estados Unidos fora de seu território.

Os que conhecem a história da Madeira-Mamoré dizem nas rodas de conversa que o autor da mini série, Benedito Rui Barbosa, encontraria muito mais drama, romance e aventura se recuasse um pouco mais no tempo e contasse a história dos americanos que verdadeiramente iniciaram a construção, assentaram os primeiros trilhos e a inauguraram no dia 4 de julho de 1878.

E depois foram destruídos pelas febres e pela selva.


PERSONAGENS

O personagem em que a Globo parece pretender centralizar a mini série, o engenheiro Tomlinson, ignorando os grandes personagens da história verdadeira, como Tom Collins.

Collins, dono da construtora ferroviária norte-americana P. T. Collins, a empresa que realmente iniciou as obras da Madeira-Mamoré, fazia seus homens desafiarem os limites do sofrimento e da morte para desbravar a floresta.

Foi ele quem abriu os primeiros cem quilômetros de picada para a linha férrea, assentou os primeiros sete quilômetros de trilhos e fez a locomotiva andar pela primeira vez.


DRAMAS

Colins é um personagem tão denso que hoje, 130 anos depois, não é possível julgá-lo como herói ou vilão em sua sobre-humana obsessão para dominar a selva e construir a ferrovia.

Todos os grandes dramas humanos da terra que no futuro se chamaria Rondônia tiveram início no acampamento de Collins em Santo Antonio do Madeira.

A primeira greve trabalhista desta terra ocorreu no acampamento de Colins. O pagamento dos salários dos operários estava atrasado e eles iniciaram uma greve.

Collins não admitia atrasos e tratou a questão operária de forma autoritária e brutal: trancou os grevistas numa espécie de jaula feita com trilhos.

Depois, Collins ordenou ao comandante do navio da ferrovia, atracado na margem do Madeira, que virasse o canhão da embarcação e o apontasse na direção dos grevistas.

O navio tinha esse canhão para defender-se de piratas do rio. Collins ameaçou dispará-lo contra os grevistas se eles não voltassem ao trabalho. Era apenas o início de outros dramáticos episódios.


HISTÓRIA

O motim foi controlado. A maioria obedeceu. Mas um grupo de 70 operários italianos resolveu fugir do acampamento embrenhando-se na selva. Pretendiam chegar a Bolívia, mas foram tragados pela imensa e violenta floresta. Nunca mais se soube de nenhum deles.

Um grupo de trabalhadores alemães também tentou escapar. Eles construíram uma balsa de concreto e tentaram fugir pelo rio Madeira. A balsa, batizada de “Lusitana”, afundou e os alemães foram arrastados pela correnteza. Os que não se afogaram ou se despedaçaram nas corredeiras, foram devorados pelos peixes carnívoros do rio.

A mulher de Tom Collins não suportou as tensões, o medo dos ataques de índios e feras, as febres, o desconforto, e enlouqueceu em Santo Antonio do Madeira.

Especuladores financeiros manipularam as ações da Madeira-Mamoré na bolsa de Londres, causaram a primeira falência da ferrovia e obrigaram Tom Collins a suspender a obra um ano após a primeira locomotiva andar na ferrovia.


SALDO

O saldo dessa fase da aventura da Madeira-Mamoré foi 450 norte-americanos mortos na terra onde, 29 anos depois, seus compatriotas voltariam para continuar a construção da ferrovia e fundar a cidade de Porto Velho.

Ao final da obra, em 1912, as mortes chegavam a 6 mil e os custos a 28 toneladas de ouro.

A história da Madeira-Mamoré, pouco conhecida no Brasil (especialmente em Rondônia), é repleta de milhares de outros dramas, tão ou mais emocionantes do que esses. O livro de Márcio Souza, por ser apenas um romance de ficção, obviamente não os cita.

Moradores de Porto Velho aconselham o pessoal da Globo a ler outros livros, como a “Ferrovia do Diabo”, de Manoel Rodrigues Ferreira, ou a assistir o vídeo documentário “Desafio no Inferno Verde”, um dos premiados trabalhos do cineasta Beto Bertagna, para entender melhor a epopéia da Madeira-Mamoré.”

Fui parceiro de Beto nesse vídeo (escrevi o roteiro) e cito a “Reta do Abunã” apenas como um detalhe especialmente trágico da Madeira-Mamoré, mas que não pode ser dissociado do resto da história.


RETA DO ABUNÃ

A estrada apocalíptica produz a lenda de que cada dormente representa um operário morto em sua construção.

A lenda nasce durante a implantação de um trecho sobre um pântano, um inferno dominado pela malária, a Reta do Abunã.

Os trabalhadores desse trecho são dizimados pelas doenças. Os cadáveres são sepultados sob os trilhos.

Os maquinistas dos trens e viajantes que depois passam pelo local durante os 60 anos de funcionamento da ferrovia contam histórias de assombração.

“Dizem que os fantasmas dos operários mortos aparecem na beira da estrada fazendo sinais para o trem parar. Para que possam embarcar e fazer a viagem com a passagem comprada com a própria vida.”

O texto total do roteiro do vídeo está no livreto “Brevíssima História da Madeira-Mamoré” que Beto Bertagna publicou, traduzindo-o para o inglês, português, italiano, alemão, espanhol e francês e está a venda em livrarias.


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