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Porto Velho,  s√°b,   22/fevereiro/2020     
cidades

Moradores da zona leste: desempregados e sem esperança

3/9/2004 13:42:40
Por Aldrin Willy - colab.: Roger LaFontaine
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A retomada do crescimento econ√īmico no Pa√≠s, indicada pelo aumento nos √≠ndices de produ√ß√£o industrial e de empregos formais, n√£o chegou a Porto Velho. Pelo menos, na parte esquecida da cidade. 



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A not√≠cia propagada pela imprensa que o Brasil voltou a crescer enche de esperan√ßa os cora√ß√Ķes aflitos de pais de fam√≠lia que correm a cidade em busca de um posto de trabalho. Isso √© o que est√° ocorrendo em boa parte do Pa√≠s, e de forma mais sens√≠vel nas regi√Ķes abastadas, a exemplo dos p√≥los industriais de S√£o Paulo, Rio de Janeiro e Manaus.

Na contram√£o do despertar econ√īmico nacional, em Porto Velho, a popula√ß√£o dos bairros perif√©ricos n√£o expressa √Ęnimo com os ventos de crescimento sentidos em outras cidades. O desemprego reina absoluto nos lares e, para esse povo, a retomada do crescimento ainda n√£o aconteceu.


TODOS DESEMPREGADOS

Na casa de M√°rio Eduardo (19), morador da Rua Benedido Juv√™ncio, no Bairro Juscelino Kubitschek, todos est√£o desempregados. S√£o as irm√£s de Eduardo, sentadas com ele num banco cont√≠guo √† casa, que respondem desabaladamente ao rep√≥rter se algu√©m na resid√™ncia est√° sem emprego. A sobreviv√™ncia s√≥ √© poss√≠vel com os “bicos” que os integrantes da fam√≠lia conseguem vez por outra.

Com maior gravidade, no lar de Rosalina da Silva (30) o problema da falta de emprego atinge a toda fam√≠lia. Ela tenta sobreviver sem emprego h√° cerca de 5 anos, morando na Rua Mapinguari, Bairro Socialista. Para manter Rosalina e o casal de filhos (uma de 8 e outro de 6 anos), o padeiro desempregado e marido “se vira como pode”.

O empenho heróico do marido de Rosalina, entretanto, não resulta em mais do que um salário mínimo (R$ 260) por mês. Os recursos escassos obrigam-na a sacrificar a alimentação dos filhos: enquanto conversa com o repórter, seu filho destroça um minguado pedaço de pão.

A situa√ß√£o de Luana Mendes Lopes (19) √© um pouco melhor. Seu marido trabalha e consegue sustentar a mulher e o filho lactente. Residente na Rua Raimundo Cantu√°ria, no Bairro Tancredo Neves, Luana expressa atrav√©s de sua inoc√™ncia de menina que virou m√£e cedo a insatisfa√ß√£o de viver sem ocupa√ß√£o formal. Depois do emprego de bab√°, h√° 2 anos, ela n√£o mais conseguiu ocupa√ß√£o e hoje desistiu de ir atr√°s de um posto de trabalho. “Fico em casa ‘mermo’, cuidando do meu filho”.

Na Rua Che Guevera, Bairro Socialista, outro caso que abominaria o c√©lebre guerrilheiro. Deixado pela mulher, pai de tr√™s filhos, Raul Vitor de Medeiros (52) j√° nem se lembra com precis√£o h√° quanto tempo teve seu √ļltimo emprego. “Acho que foi em 99”, esfor√ßa-se. V√≠tima de uma h√©rnia de disco, Raul n√£o pode mais exercer sua profiss√£o na padaria, pois “eu n√£o posso fazer for√ßa” e para ele “n√£o se acha mais vagas”.

Raul veio de S√£o Paulo com expectativa de que aqui conseguiria uma vida mais tranq√ľila para a fam√≠lia. Est√° desapontado e, se a situa√ß√£o n√£o melhorar, retornar√° a seu Estado de origem.


CULPA DOS GOVERNOS

O crescimento n√£o vem, nem os empregos com ele. Para amenizar a trag√©dia das fam√≠lias que tentam sobreviver a p√£o e √°gua, o Governo e a Prefeitura “fazem sim, na √©poca da elei√ß√£o, fazem muita coisa”, afirma Medeiros.

O pensamento de Raul Medeiros, dado como resposta √† indaga√ß√£o do rep√≥rter, sintetiza a id√©ia consensual entre os habitantes das regi√Ķes afastadas do centro da Capital quanto √† atua√ß√£o do Poder P√ļblico no combate ao desemprego: a presen√ßa dos governos federal, estadual e municipal inexiste ou √© muito limitada e quando ocorre √© motivada por interesses eleitorais.

Raul hesita a princ√≠pio; mas logo depois, numa cad√™ncia enfurecida, elege o culpado pelo desemprego. Atacando “o cora√ß√£o da coisa”, ele dispara:

— A maior parte desse desemprego √© [causada pelo] o Brasil que n√£o tem governo. √Č nego roubando l√°, nego roubando c√°. Para os pobres [...] n√£o sobra nada. Onde j√° se viu, na rede carcer√°ria um preso custar R$ 3 mil e o governo n√£o poder dar uma bolsa escola maior que R$ 15 por cada pessoa.

A car√™ncia do Poder P√ļblico na regi√£o leste de Porto Velho vai al√©m da bolsa escola. A quase aus√™ncia de creches municipais na regi√£o impede, em muitos casos, os pais desempregados de buscarem trabalho.

Rosalina diz que como “n√£o tem com quem deixar” o filho pequeno, n√£o pode sair para procurar emprego.

Além disso, as crianças são obrigadas a ingressar no ensino básico sem antes passar pela alfabetização.

“O meu filho que tem 6 anos n√£o foi pro pr√© [creche pr√©-escolar de alfabetiza√ß√£o], porque eu n√£o consegui [vaga]. Aqui s√≥ tem dois pr√©, o restante √© particular. Ent√£o como n√£o tem dinheiro [...] ele n√£o faz pr√© [n√£o √© alfabetizado]. Vai direto pra primeira s√©rie” – conta Rosalina.

A jovem Luana Mendes acredita que o governo e a prefeitura, “n√£o muito, mas fazem” alguma coisa para abrandar a situa√ß√£o na regi√£o. Mesmo assim, “√© dif√≠cil eles fazerem alguma coisa”.


PREFEITO DAS “FLORZINHAS”

Os habitantes dos bairros periféricos da zona leste, além de sofrerem amargamente a chaga da falta de emprego, desconhecem a presença da prefeitura, e especialmente do prefeito, em suas ruas. Estas, na esmagadora maioria, estão repletas de buracos, esgotos a céu aberto e cobertas por uma grossa camada de poeira, a qual, quando algum veículo atravessa a rua, emerge na atmosfera.

Rosalina revela algo surpreendente: um outro nome pelo qual √© conhecido o prefeito Carlos Camur√ßa. “Aquele l√° √© conhecido como o prefeito das florzinhas, Carlinhos das Florzinhas, porque s√≥ sabe plantar flor, outra coisa n√£o. No ano passado ele fez concursos para catador e gari, esse ano nem isso.”


EDUCAÇÃO

Os moradores entrevistados por Imprensa Popular reconhecem que uma das causas prec√≠puas de seu desemprego √© a falta de maiores estudos e especializa√ß√Ķes. Contudo, atribuem essa defici√™ncia ao fracasso do governo em dar uma escola de qualidade.

Ainda que a situação não melhore e as famílias tenham seus dramas aumentados, os residentes das zonas esquecidas da Capital (pela prefeitura), ao menos os ouvidos pela reportagem, não pretendem mudar de Porto Velho ou do Estado.

A razão da permanência deles, todavia, não é somente o amor que sentem pela cidade; deve-se, sobretudo, a difícil situação, segundo eles, em todos os lugares dentro ou fora do Estado.

— Eu cheguei a pouco tempo do Maranh√£o e as coisas l√° n√£o est√£o melhores n√£o – confirma M√°rio Eduardo.

A continuar a estagna√ß√£o da economia local, Rosalina acredita que o futuro de sua fam√≠lia ser√° “o pior poss√≠vel”. O que ser√° ent√£o das fam√≠lias em piores condi√ß√Ķes (se existirem)? “S√≥ Deus sabe.”


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