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Porto Velho,  qua,   17/julho/2019     
COLUNISTA: Gessi Taborda

EM LINHAS GERAIS

25/7/2003
taborda@enter-net.com.br
 
  
DO OUTRO LADO
Ontem recebi, de cortesia, uma nova tiragem do meu livro “Arquivos Abertos de Rondônia”. O volume ultrapassa os 500 exemplares, quantidade que pretendo desovar entre leitores interessados em ter contigo uma coletânea de parte significativa da minha produção jornalística. O inusitado presente – a gráfica descobriu que tinha impresso volumes à mais – motivou ao meu filho Aldrin, acadêmico da Faro e da Unir, a me entrevistar para que eu respondesse suas perguntas não como pai, mas como jornalista e, na sua definição, “escritor”. Gostei tanto do bate papo que resolvi abrir o espaço desta sexta-feira para o Aldrin publicar seu primeiro exercício como entrevistador. O leitor certamente me permitirá essa coisa de pai coruja:

ESTÃO DANDO APENAS LIXO LITERÁRIO PARA NOSSOS ALUNOS, ESPECIALMENTE AS CRIANÇAS.

Aldrin Willy – Então você está lançando uma nova edição de seu livro “Arquivos Abertos de Rondônia”?
Gessi Taborda – Não é bem isso. O livro tinha esgotado e, não sei porque cargas d’água, o dono da gráfica, que fica em Cuiabá, resolver mandar mais mil exemplares de brinde para mim. Eu nem pretendo fazer algum tipo de relançamento, pois a edição é a mesma. Pretendo vende-lo pela Internet e, quando mundo, aos acadêmicos de jornalismos de nossas faculdades. Acredito que esse segmento terá interesse em tomar contato com essa obra, pois a maior parte de seu conteúdo reproduz aquilo que de melhor produzi como jornalista em nosso Estado. Nesse sentido creio tratar-se de um livro interessante para quem está pretendendo ser jornalista.

AW - De que forma você transfere sua visão da vida, como jornalista, para o livro Arquivos Abertos?
GESSI TABORDA - Eu parto geralmente, no meu trabalho como jornalista, seja elaborando uma reportagem, um artigo ou uma crônica, de coisas que me incomodam. Que me fazem mal. Na reportagem, por exemplo, trabalho tanto o indivíduo quanto a sociedade. Uma coisa que eu percebo que está me incomodando, vai se transformar em matéria que estimule o debate, a polêmica. No caso dos Arquivos Abertos de Rondônia, coloco matérias mostrando a realidade urbana e rural de nosso Estado, dando destaque para as comunidades ribeirinhas, primitivas. Ao conhecer o dilema de pessoas que deixaram o bucolismo de lugares às margens de nossos rios buscando o conforto proporcionado pelo que existe nas cidades, vendo sua pobreza de muito perto me surgiu a pergunta – o progresso tem de ter sempre suas vítimas? A vida urbana causa danos profundos a estas pessoas, como o esfacelamento de uma família que, despreparada para viver a realidade da competição urbana, acaba vendo suas filhas cair na prostituição, os rapazes tornando-se presas fáceis da criminalidade, etc. As matérias que recheiam esse livro procura mostrar que o jornalismo tem de levar em conta o ser humano, tem incomodar.

AW РEnṭo o livro ̩ o retrato de uma literatura comprometida com o social?
GESSI TABORDA - Na realidade o livro não é uma “literatura” e sim uma coletânea de trabalhos jornalísticos capaz de estimular principalmente os jovens profissionais a fugir da produção anêmica que vem acontecendo nas raríssimas reportagens de hoje. Eu sinto essa anemia em todos os campos da produção jornalística. Dada a falta de recursos dos jornais, a reportagem está praticamente morta. No nosso caso, ela está morta também na televisão que foge à responsabilidade de fazer produção regional, preferindo apenas retransmitir a programação das grandes redes ou, quando muito, produzir o tal jornalismo pedestre. A nossa imprensa está numa pindaíba sem tamanho. Na verdade todas as manifestações culturais, incluindo ai as artes em geral, estão vivendo uma certa perplexidade, sem saber que rumo tomar. Enfim, em todos os campos há essa anemia, inclusive na literatura. E há, também, um desinteresse muito grande da juventude em engajar-se em alguma coisa, em ler e discutir. Esses jovens de hoje, não sabem o que foi uma infância vivida num ambiente político democrático, saudável. Outro dia procurava conversar com estudantes de uma faculdade aqui de Porto Velho e um deles me disse o motivo de seu desinteresse: O mundo não vai mais para lado nenhum. Hoje, a ausência da bipolarização provocou essa apatia, porque o homem não tem mais alternativa. Essa ausência de alternativa amoleceu a vontade das pessoas. Na minha opinião a outra alternativa continua existindo, mas na visão da maioria das pessoas ela não existe mais.
AW РO processo de aliena̤̣o ̩ verificado apenas entre os jovens estudantes?
GESSI TABORDA – Claro que não. Essa processo está até mesmo no movimento sindical hoje. Antes o sindicalismo era um instrumento de politização, que ajudava na conscientização das massas, da capacidade de articulação das massas, das lutas pelos direitos sociais. Isso acabou, não existe mais. Hoje os sindicatos são assistencialistas, na realidade são apêndices e auxiliares do empresariado. Não existe mais, como já chegou a existir, o sindicato combativo, em defesa dos direitos dos trabalhadores. O governo, aliado aos patrões, vai espezinhando, eliminando os direitos adquiridos sem que haja luta. A sociedade vive um momento de apatia.

AW - Esse processo de alienação que você traçou, parece que convive com um processo de mediocrização cultural. A pouca vendagem de seu livro, os raros convites para palestras, tudo isso reflete esse desinteresse. Agora, com o grande número de acadêmicos de jornalismo você acha que seu livro poderá despertar maior interesse entre, por exemplo, os estudantes?
GESSI TABORDA – Vamos começar nossa análise pelo sistema de ensino básico, o tal primeiro e segundo graus. Eu acho que ele está mais ou menos falido. Introduziram alguns instrumentos na mecânica do ensino que causaram um prejuízo muito grande, continua causando e ainda vai causar muito prejuízo. Acho que nos próximos cinqüenta anos o Brasil não se recupera da degradação que houve, sobretudo na rede pública de ensino. O sucateamento da rede pública, acho que foi criminoso e orquestrado: ele não foi casual. O crescimento do ensino pago, elitizante, para poucos, foi pensado, foi proposital. À medida em que se sucateou o ensino público, prejudicando a classe média e os pobres, surgiram escolas que ganham muito dinheiro. Uma das melhores aplicações de capital, hoje, é escola. Esse é um lado da questão. Mesmo assim, eu acho que nem tudo está perdido. Eu não acredito em ensino onde as pessoas não são estimuladas a ler, a aprender ler. E hoje o que eu vejo, quando se fala em leitura na escola é um monte de lixo, são livrinhos que não provocam o interesse pela polêmica, pelo questionamento. As escolas deveriam estimular seus alunos a ler pelo menos os jornais, já que a maioria não pode mesmo comprar livros. Quando lancei “Arquivos Abertos de Rondônia” pensei que os prefeitos, os secretários municipais de cultura se interessariam em adquirir exemplares para colocar nas bibliotecas, nas escolas, etc. Qual nada. Eles não pensam que o livro é uma necessidade, e quando compram alguma coisa nesse sentido é só aquilo que está na mídia, na cabeça das pessoas. Quem perde tempo com a má literatura dificilmente chegará a ler Machado de Assis.
AW - E qual é a função do escritor e do jornalista na sociedade, se é que ele tem função?
GESSI TABORDA – Eu acho que ambos são uma espécie de antena da sociedade. No caso do escritor, ele pode não passar informações, mas passa emoções e mostra às pessoas o que está acontecendo. A matéria jornalística, especialmente a reportagem bem escrita, vai causar alegria, espanto, provocar reflexão. O bom jornalista mesmo quando não dá respostas esperadas pela sociedade, tem de incomodar. Nesse caso o jornalismo tem uma similaridade com a arte. Penso que só se pode considerar verdadeira arte, a arte que incomoda. A arte que entorpece não tem mais função dentro da sociedade. A função da verdadeira arte é incomodar, provocar. Muito mais acordar do que fazer dormir.


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