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Porto Velho,  sex,   6/dezembro/2019     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

Como se nada tivesse acontecido

03/04/2013 14:14:03
porfirio@palanquelivre.com
 
  

 

Tragédia na Av. Brasil foi apenas mais uma de um sistema de transporte ditado por interesses vorazes
Nos últimos quatro anos, a média foi de quase dois acidentes com vítimas por semana envolvendo ônibus na cidade do Rio de Janeiro. Em 2011, houve o registro de 126 casos; e em 2012, 84. 
Está na cara: há um estreito grau de parentesco entre a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, e o dramático desastre com o ônibus que despencou do viaduto na tarde desta terça-feira, na mais importante artéria da cidade do Rio de Janeiro – a Avenida Brasil.

Ambos têm no DNA a cumplicidade dos poderes públicos ante os abusos e o primado dos interesses insaciáveis sobre instituições absolutamente coniventes, degeneradas, desfiguradas e desmoralizadas.

O que aconteceu às quatro da tarde desse dia 2 de abril é o que o lugar comum cataloga na surrada categoria de tragédia anunciada. A excessiva sujeição da Prefeitura carioca aos gostos inescrupulosos das empresas de transporte coletivo fatalmente produziria uma tragédia desse impacto, como exacerbação potencializada  dos acidentes rotineiros provocados por uma frota em operação única e exclusivamente para super-dimensionar os lucros já auferidos em um ramo da economia.
Qualquer que seja a causa oficial do acidente que ceifou na hora sete vidas e pôs na fila da morte outras tantas chegará à insólita conclusão de que é ABSOLUTAMENTE CRIMINOSO permitir que um único profissional trabalhe em ônibus que podem transportar até 80 passageiros, atribuindo-se ao motorista às funções de cobrador e do relacionamento com uma clientela heterogênea e ansiosa.

Sim, para os que não sabem, a quase totalidade da frota carioca de mais de 9 mil ônibus dispensou a presença do cobrador para aumentar a lucratividade de um cartel indiferente à natureza do seu serviço e sempre generoso nas relações com as autoridades em todos os seus níveis.

Na tragédia desta terça-feira, testemunhas viram um cidadão pular a roleta para ir à cabine do motorista discutir por que ela não havia parado onde havia sinalizado. E não havia parado, segundo também disseram, por que não queria pegar cerca de 15 alunos de escola pública com direito à gratuidade que a matemática dos nossos dias compensa com verbas públicas.

O cartel que dá as cartas

Esse cartel de meia dúzia de consórcios deita e rola, como se fosse uma temível máfia com alto poder de corrupção e intimidação, em manobras tão atrevidas que têm sob controle todos os personagens com que lidam, inclusive as próprias lideranças do sindicato dos rodoviários.

Seu poder de fogo é tal que só têm concorrentes entre as construtoras e empreiteiras no gozo da influência sobre esses podres poderes,  sendo as principais razões de ser das políticas de transportes no Estado do Rio de Janeiro, tão nocivas que carreiam para os ônibus quase 74% dos passageiros da Região Metropolitana, onde o sistema de trens serve à metade do que transportava há 60 anos, quando a população da cidade era a metade do que é hoje, e onde o metrô não passa de um brinquedo de pouca serventia em seus 44 Km de linhas, que alcançam apenas 3% dos passageiros nesse mesmo espaço.

O atual prefeito do Rio de Janeiro,como seus antecessores afins, só tem olhos para o sistema de ônibus e investe pesado o que tem e o que não tem para abrir corredores que se transformam em tapetes vermelhos desse segmento empresarial.

São para estes os grandes investimentos viários do sr. Eduardo Paes, que se serve de um escudo mágico para justificar os corredores em implantação – os 15 dias dos jogos olímpicos de 2016.

Obras em decomposição precoce

Pista do BRT das Américas abriu crateras em vários pontos
E de tal forma ele cruza interesses que sua obra mais onerosa, o corredor do BRT que liga a Barra da Tijuca à Santa Cruz não seria a prioridade de uma administração  que procurasse minorar o caos urbano nas áreas de maiores demandas, que estarão fatalmente estranguladas nesse período tão pretextado, quando o número de automóveis passar dos atuais 1 milhão e 800 mil para 3 milhões, coisa que acontecerá  nos próximos seis anos, segundo previsões da COPPE da UFRJ.

Com o poder de fogo e a grana fácil que pode distribuir o cartel dos transportes rodoviários faz da sua fiscalização um bando de servidores igualmente condicionados por seu império, por bem ou por mal:
O ônibus que voou do viaduto, com 46 multas somadas, não passou pelo DETRAN em 2012, como é de lei, embora constasse com vistoriado pela prefeitura em julho desse mesmo ano.

Como tantos outros que de vez em quando sobem às calçadas – um chegou a matar 10 pessoas num ponto da mesma Avenida Brasil, em frente ao Caju – são submetidos a manutenções precárias e entregues a profissionais recrutados a laço numa categoria  que só vai procurar trabalho nas garagens em último caso, tal o salário miserável que recebem e o nível de responsabilidade que acumulam.

A esse ambiente de cumplicidade, com uma tropa de choque na Câmara de Vereadores e um poder econômico expandido a outros ramos, as empresas de ônibus  não reclamam das condições de infra-estrutura de uma cidade que alaga a qualquer chuva e que é notável por suas obras mal acabadas.  

Nesse acidente desta terça-feira, ficou evidente que as muretas de proteção eram uma balela, erguidas certamente em desrespeito aos próprios projetos, conforme o facilitário de uma fiscalização de obras igualmente leniente e acostumada a vistas grossas.

A mais recente obra do prefeito Eduardo Paes, que foi usada como trunfo na sua reeleição, está dando sinais de decomposição precoce, com erupções de crateras em vários trechos da Avenida das Américas e uma constatação afrontosa: a reserva de uma pista de rolamento exclusivamente para os 80 ônibus do BRT não compensou o transtorno causado ao escoamento dos demais veículos.

Se nesse espaço fechado corressem trens de superfície, com capacidade de transportar 8 vezes mais passageiros, teríamos justificado o gasto feito ali, enquanto o viaduto do Joá, que liga a Barra à Zona Sul, expõe suas vísceras danificadas pela corrosão e é condenado em estudos encomendados à COPPE pela própria prefeitura.

Como em todas as outras tragédias, nos dias próximos ainda sob a pressão emocional de uma população lograda, esse desastre rodoviário será objeto de todo tipo de especulação de causas e de todo tipo de providências prometidas.

Mas logo, logo tudo voltará à normalidade inercial, ao regime da cumplicidade e da impunidade que são marcas explícitas desses dias de administrações incompetentes e  por demais tolerantes com todo um ambiente esclerosado e ameaçador.

Em Santa Maria, pelo menos, oito pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público, incluindo, além dos protagonistas diretos, dois oficiais do corpo de bombeiros acusados de fraude nos alvarás.

Aqui, infelizmente, pela que se viu em outras tragédias que expuseram o despreparo e a incúria das autoridades, tudo continuará acontecendo como antes. Como se nada tivesse acontecido.


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