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Porto Velho,  qua,   17/julho/2019     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

Contribuição para entender a genealogia do massacre na escola pública em Realengo

10/4/2011 17:54:42
porfirio@palanquelivre.com
 
  

 

Assassino pode ter assimilado a Bíblia a seu modo, tornando-se o algoz de fornicadores e de impuros


 
  
"Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão"

Wellington Menezes de Oliveira, em sua carta escrita antes do massacre dos meninos da escola pública de Realengo.


Sejamos razoáveis: esse inusitado massacre numa escola pública do bairro proletário de Realengo é a erupção de um tumor nesse organismo social fragilizado por uma metástase de hipocrisia e mistificação.

 

Desde o infausto acontecimento, infelizmente, toda a mídia e as autoridades bóiam na superfície do torpor causado, contando para isso com palpites de "especialistas" contingenciados no limite dos seus focos profissionais e na precipitação de suas vaidades manipuláveis pelos holofotes.

 

Há de se reconhecer que o massacre dos meninos de Realengo impôs um excitado estado de choque em todo o país, cada pessoa olhando para seus entes queridos com a idéia de que tragédia fora de nosso catálogo criminal poderá ser converter numa incontrolável bola de neve.

 

No próprio dia 7, outro rapaz foi detido na Escola Grécia, Vila da Penha, e levado para a 38º DP, sob suspeita de tentar outro massacre, conforme noticiou a Rádio Tupi. Daqui para frente, por algum tempo, uma espécie de síndrome de Realengo rondará os nervos em pandarecos dos pais, sobretudo nas escolas públicas mais distantes.

Autoridades, professores, "especialistas" pais e mídia, no entanto, permanecerão impregnados pela crença de que tudo não passou de um gesto tresloucado de um psicopata, sobre cuja patologia individual especularam durante todo o dia de ontem.

 

As vítimas serão sepultadas por conta da Prefeitura, com o país oficialmente de luto, e já se fala numa assistência psicológica para os sobreviventes. Aqueles meninos cheios de sonho não se livrarão tão cedo do pesadelo provocado por um tipo de violência que parecia exclusiva dos Estados Unidos e de alguns outros países ricos, onde as aberrações dessa magnitude substituem preocupações elementares de sobrevivência, exacerbam as idiossincrasias individuais e enfatizam a irresponsabilidade social, a ausência dos sentimentos e a decadência dos valores matrizes da vida.


Para a mídia, a novidade criminosa acentuou a concorrência entre os veículos, cada um em busca de informações e análises exclusivas. Alguns canais de televisão e algumas rádios se concentraram na repercussão do morticínio, motivados por impulsos naturais de um jornalismo que se esgota em si.

 

O inteligente depoimento da menina Jade Ramos, de 12 anos, com um relato frio e detalhado dos momentos de tensão vividos, foi repetido muitas vezes. Também ganhou destaque a ação do sargento Márcio Alves, de 38 anos, acionado por uma menina ferida quando participava de um blitz de trânsito a duas quadras da escola, já que ninguém se lembrou de recorrer ao 190 da PM.

 

Mas ninguém quis ou soube descer às profundezas de um contexto que fez do jovem Wellington Menezes Oliveira, filho que havia perdido os pais adotivos, um verdadeiro monstro, responsável por mortes tão perversas que levou a presidente Dilma Rousseff às lágrimas.

 

Pelo menos por agora, é pobre e medíocre o rol das causas do gesto assassino. Dizer que o rapaz solitário era um psicopata é fácil. Tratar do seu gesto nos limites de uma escrizofenia qualquer acadêmico de medicina o faria. Mas ir muito além, como fez Mike Moore, o inquieto cineasta norte-americano, no caso da matança em Columbine, isso vai levar um tempo para que caia a ficha.

 

No caso do filme-dcoumentário Tiros em Columbine, ele expôs as entranhas de um ambiente em que se juntavam a obrigatoriedade do armamento de cada cidadão, conforme a Segunda Emenda da Constituição dos EUA, e as incoerências de uma sociedade falsamente puritana, sob governos pródigos em se envolverem em guerras e no patrocínio da violência desumana em terras alheias.

 

Mas aqui, embora a superexposição do noticiário sobre massacres em escolas americanas tenha um peso como modelo para o massacre de Realengo, há outros fatores tão graves que justificam a paranóia disseminada a partir de ontem.

Na carta do assassino, a influência bíblica mal-assimilada

A semiologia da carta digitada e assinada pelo assassino permite conhecer elementos determinantes de sua atitude megalomaníaca. Ele usa palavras extraídas da Bíblia, como FORNICADOR, sobre a qual se lê em Apocalipse 21:8: "Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte".


 


No Deuteronômio, do Velho Testamento, está escrito em 22:20-21: "Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, 21 Então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti".


 


Não há dúvida que, pressionado pela condição de filho adotivo provavelmente discriminado pelos irmãos, cuja mãe biológica tinha problemas mentais, e possuído de um certo complexo de rejeição, ele acabou sofrendo influências da pregação  evangélica, que ocupa grandes espaços na televisão e no rádio, oferecendo todo tipo de cura para todo tipo de problema.


 


A forma irresponsável como pastores sem escrúpulos arrecadam dinheiro para suas igrejas em troca de uma panacéia salvadora tem produzido inconsequentes espetáculos midiáticos que atraem multidões de seres humanos desenganados por si e em bsuca de uma tábua de salvação.

O poder dessas igrejas se lastra em encenações transmitidas para todo o país, em tevês abertas, enfatizando o espetáculo da salvação e da cura. Paralíticos voltam a caminhar, cegos a ver e doenças incuráveis são resolvidas com a simples intervenção do Senhor Jesus, do qual esses profissionais da fé se acham legítimos intermediários.


 


Daí para levar um jovem tímido e complexado a assimilar poderes excepcionais emanados do fundamentalismo bíblico é um passo. Toda a carga negativa se converte em dotes geradores de atitudes que refletem temporariamente a condição superior, acima do bem e do mal.


 


No contexto mais amplo, o vasto noticiário sobre delitos do colarinho branco e sobre o comportamento imoral de pessoas públicas influentes serve de condimento à forja de um personagem que se "liberta" do sofrimento racional e ganha armadura onírica.


 


Valores como a vida dos outros somem do juízo e passam a compor a fórmula purificadora que a mente, transtornada por lavagens cerebrais constantes, desenvolve como elementos explosivos irrefreáveis. 


 

Eu diria que a utilização da grande mídia como transmissora de pregações religiosas extravagantes pode estimular desatinos como o que custou tantas vidas inocentes. A religião não pode se valer de um exibicionismo espetaculoso sem limites para ampliar o rebanho. Por sua natureza sacra, extrapolar o portal do templo, do consultório espiritual discreto favorece a todo tipo de interpretação da mensagem de Deus, tão importante como bálsamo para pessoas carentes de práticas religiosas compensatórias.


 


Por enquanto, vou ficando por aqui. Mas com certeza há ainda muitos ingredientes na raiz do gesto assassino que a tantas vidas meninas ceifou. 



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