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Porto Velho,  sáb,   19/outubro/2019     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

Quando baixarias e incompetências se nutrem mutuamente no palanque da ignorância

7/10/2010 16:37:04
porfirio@palanquelivre.com
 
  

"Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas". Constituição Federal, artigo 226, parágrafo 7º.

Como era de se esperar, neste país infestado de falsos malandros, mergulhado no lamaçal da mediocridade e exposto a um grande bordel de maus caráteres, o segundo turno das eleições de 2010 já começa mal, com as marcas e as apelações do que há de mais deplorável.

Os marqueteiros e assessores da campanha de Dilma Rousseff concluíram precipitadamente que ela não levou no primeiro turno devido à divulgação maciça na última semana de setembro de sua postura que considera o aborto questão de saúde pública, semelhante, sem tirar nem por, à do presidenciável José Serra, que teve a coragem de assinar algumas medidas nessa área: uma
norma técnica de 1998 que regulava a autorização de aborto nos casos de perigo de vida e estupro, previstos no artigo 128 do Código Penal, de 1940, e outra, a portaria 48/99, através do secretário de Assistência à Saúde, que normatizava a realização de laqueaduras e vasectomias no SUS, com base na Lei 9263/96, e do artigo 226, da Constituição Federal.

Com tantos recursos aplicados no "marketing", os assessores muito bem pagos da candidata não querem admitir a verdade incontestável: Dilma nunca chegou a ter os 51 pontos proclamados por esses institutos de pesquisas de duvidosa competência.

Baixaria e manipulação pesam pouco numa eleição presidencial

A divulgação de uma campanha de baixo nível tentando atingir a candidata do Lula não pesou em nada. Era muita baboseira junta, muita mentira, muita apelação. Coisa, aliás, que não é exclusividade dos seus adversários.

Panfletários primários existem em todas as hostes. Um certo missivista faz questão de associar Arruda ao nome de Serra. Cheguei a escrever-lhe sobre esse expediente baixo, que não tirou um único voto do tucano. Apenas revelou a pobreza retórica que permeia as atitudes dos que se servem abusivamente do panfleto destituído de argumentos consistentes.
 

Em relação à Dilma, recebi mais de uma vez um aviso para lá de idiota: se eleita, ela não teria como entrar nos Estados Unidos, por causa de seu passado na luta armada. Quem escreveu isso e quem repassa tende nos considerar um monte de idiotas desinformados.

No dia 21 de maio, Dilma falou aos empresários norte-americanos em Nova York


Na véspera de lançar-se oficialmente, Dilma Rousseff, exatamente no dia 21 de maio,  fez palestra em Nova York para empresários norte-americanos, durante a qual garantiu que o Banco Central continuará tendo total autonomia.
Ela também garantiu aos empresários norte-americanos, que a receberam com o melhor da sua gastronomia,que "manterá a estabilidade macroeconômica por meio do controle da inflação com uma política de metas, do controle fiscal através da redução do endividamento, e com uma política cambial flexível".

Ou você prefere a indústria corruptora de abortos clandestinos?

Até prova em contrário, quem levou uma tremenda lavagem das urnas foi o discurso de direita, representado por políticos até então invencíveis, como o ex-vice-presidente Marco Maciel, em Pernambuco, e o tucano Tasso Jereissati, no Ceará. Outros ícones da velha guarda direitista e reacionária não sucumbiram porque foram socorridos por Lula. Só sua mão de ferro garantiu a vitória da filha do Sarney no Maranhão e a reeleição de Renan Calheiros, em Alagoas.

Sobre a questão do direito da mulher decidir, sobre a necessidade uma política de planejamento familiar, que abordei em meu livro SEM MEDO DE FALAR DO ABORTO E DA PATERNIDADE RESPONSÁVEL, creio que o pior para os dois candidatos é negar o que fizeram e que disseram, no contexto de uma visão madura sobre a irresponsável explosão demográfica.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro, sem medo, sem titubear, que a descriminalização do aborto não significa sequer a sua aprovação. Apenas confere a cada casal, a cada mulher em particular, a legalidade de uma prática que alimenta uma PERIGOSA INDÚSTRIA DE ABORTOS CLANDESTINOS, fonte de corrupção e causa de cerca de 10 mil mortes por ano de mulheres submetidas a essas práticas em verdadeiros açougues.

Ou você não sabe que aí na sua cidade se pratica o aborto em clinicas e até em mãos de leigos, a preços que variam de R$ 600,00 até R$ 5,000,00?

Quem se opõe a uma mudança de enfoque na questão, no fundo, está apenas fazendo o jogo de profissionais e pessoas inescrupulosas, responsáveis por mais de 1 milhão de abortos anuais, realizados sem nenhuma segurança, principalmente em relação às mulheres pobres. As estatísticas do SUS admitem que cerca de 500 mil mulheres procuram anualmente os hospitais públicos depois de abortos mal sucedidos.

Descriminalizar não é induzir. E, a bem da verdade, se houvesse uma política correta de paternidade responsável, com a devida orientação, coisa que pastores e padres primitivos boicotam, nenhuma mulher precisaria recorrer ao aborto.

Uma postura lúcida da CNBB denuncia a manipulação da fé

A defesa do planejamento familiar e da paternidade responsável não é bandeira exclusiva desse ou daquele partido. O mais legítimo dos direitistas, o capitão-deputado Jair Bolsonaro, mais uma vez reeleito no Rio, é um ferrenho defensor de políticas de controle demográfico. Pergunte a ele como isso aconteceria na sua concepção.

Felizmente, mais lúcida do que os assessores dos candidatos, foi a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que divulgou uma nota oportuna neste dia 6 de outubro, através da sua Comissão de Justiça e Paz, na qual alerta, com todas as letras:

"A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) está preocupada com o momento político na sua relação com a religião. Muitos grupos, em nome da fé cristã, têm criado dificuldades para o voto livre e consciente. Desconsideram a manifestação da presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 16 de setembro, "Na proximidade das eleições", quando reiterou a posição da 48ª Assembléia Geral da entidade, realizada neste ano em Brasília. Esses grupos continuaram, inclusive, usando o nome da CNBB, induzindo erroneamente os fiéis a acreditarem que ela tivesse imposto veto a candidatos nestas eleições.

Continua sendo instrumentalizada eleitoralmente a nota da presidência do Regional Sul 1 da CNBB, fato que consideramos lamentável, porque tem levado muitos católicos a se afastarem de nossas comunidades e paróquias.
Constrangem nossa consciência cidadã, como cristãos, atos, gestos e discursos que ferem a maturidade da democracia, desrespeitam o direito de livre decisão, confundindo os cristãos e comprometendo a comunhão eclesial.

Os eleitores têm o direito de optar pela candidatura à Presidência da República que sua consciência lhe indicar, como livre escolha, tendo como referencial valores éticos e os princípios da Doutrina Social da Igreja, como promoção e defesa da dignidade da pessoa humana, com a inclusão social de todos os cidadãos e cidadãs, principalmente dos empobrecidos".

Voltarei ao assunto, esperando que você também não transforme sua paixão partidária ou sua rejeição num foco de baixarias e má fé. E não recorra ao jogo baixo para forçar a vitória do seu (ou sua) candidato.

Em tempo: se desejar, terei prazer de fazer chegar a você o meu livro SEM MEDO DE FALAR DO ABORTO E DA PATERNIDADE RESPONSÁVEL, de 2002.

Em tempo 2 - Eu ainda não escolhi meu presidenciável no segundo turno. Portanto, não me venha com ilações idiotas.



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