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Porto Velho,  qua,   17/julho/2019     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

Estão espalhando que morri. Embora em dúvida, acho que ainda estou vivo.

16/11/2009 15:03:10
porfirio@palanquelivre.com
 
  

Meu problema é estômago engulhado com tana pasmaceira e tanta mediocridade.

"Orgulho-me de estar em tão boa companhia, com Sócrates, Cristo, Bruno, Galileu, Moisés, Savonarola, Dostoievski, Gandhi, Nehru, Mindszenty, Lutero e todos que combateram contra o demônio da ignorância, os decretos ilegítimos e as chagas sociais. Você aprendeu a esperar em Deus, assim como nós compreendemos a existência e o reino universais da Vida e do Amor."
William Reich, em carta escrita da prisão para seu filho Peter, pouco antes da sua morte.



Primeiro, ligaram-me o Carlinhos e o Robson, da Libertaxi. Depois, recebi outros telefonas. Queriam saber se eu havia morrido. Era o que circulava na praça desde o apagão - quer dizer blackout - uma marolinha elétrica, segundo o Lobão e a Dilma, diferente das duas do governo passado, aqueles, sim, "verdadeiros dilúvios". 

A todos fiz questão de provar que estava mais vivo do que nunca. Tranquilizaram-se. Esses que ligaram, sei, não gostariam de me ver morto. Outros, não sei. Se não tivesse ninguém torcendo pelo meu passamento, já teria nascido morto. Nesse mundo de canalhas em pencas, deixei alguns encolerizados, desejando-me ver pelas costas, se possível, a sete palmos

Depois da última ligação, a última, pelo menos até o presente momento, comecei a me tocar. Será que estou vivo mesmo? Minha mulher disse que sim. E ainda vaticinou, plena da mais convicta certeza: você ainda tem muitos anos pela frente. 

Não me convenceu. Esses dias, como você deve ter observado, não tenho escrito. Escrever para mim é um insubstituível ato de amor e de vida. Faço-o desde que me entendo por gente. Sob os mesmos impulsos e os mesmos valores, aliás. 

Se não estou escrevendo, logo posso estar no limiar da morte cerebral. Ou simplesmente condenado à morte em vida, sob a acusação de teimosia, inconformismo e insubordinação. 

Num transe, como aconteceu com William Reich, (judeu "germanizado", ex-assistente de Freud, ateu, fugitivo dos nazistas), o mais genial dos investigadores da mente e da vida, que morreu numa prisão nos Estados Unidos e teve seus livros queimados depois que o FDA - Federal Food and Drug Administration - o acusou de charlatanismo, por estar desenvolvendo a "máquina do orgone", um projeto de grande alcance vital*. 

Está bem, não chego nem aos pés do inquieto cientista, que foi expulso do partido comunista por sua paixão pela psicanálise, e da Sociedade Pscanalítica por sua militância comunista. 

A morte civil e o estômago engulhado 

Mas no momento meu estômogo não está conseguindo digerir o que meus olhos vêem e meus ouvidos escutam. Daí a dificuldade de brotar do meu cérebro qualquer coisa que se insira no cotidiano de uma lógica abominável, construída pela hipocrisia e a fraude, num demoníaco turbilhão de aberrações gráficas e eletrônicas. 

Neste momento, sinto-me abatido pela "morte civil". Creio que não sou o único, antes, pelo contrário. Quando saio às ruas, dou-me ao trabalho de olhar os semblantes das pessoas. Tenho a sensação de um desfile de mortos vivos no desespero da corrida ao ar condiconado ou a ventilador que não eram tão vitais quando cheguei ao Rio, no frescor daquele abril de 1959. 

Se ligo meus ouvidos, danificados pela tortura do frio julho de 1969, só ouço pasmaceira, conversa que já não serve nem para boi dormir. Mas que virou sonho de consumo, razão de viver de quem já se habituou à vida de gado - recusando queimar a mufa, deixando a arte do pensamento crítico aos cuidados de meia dúzia de cortesãos e arautos de uma mídia que se rivalizizam na doce vida da superficialidade boçalizada. 

Não é só isso. Temo estar adquirindo uma paranóia fatal, a paranóia da internet. Explico: recebo muitas mensagens, a maioria, lamentavelmente, apenas "repassadas" por seus autores, que adquiriram o péssimo hábito de terceirzarem suas opiniões. 

E vou lhe dizer com todo carinho e respeito: estou para descobrir alguma manifestação minimamente isenta, portanto, honesta. Cada um oferece um "pacote fechado". Seja da direita ou da esquerda, dessa ou daquele corrente de pensamento, em geral, a lucidez e o senso de justiça passam ao largo de seus cérebros nervosos.




Onde está a coerência? 

Exemplos? Em julho, o governo brasileiro recebeu com carinho e afeto a visita de Avigdor Lieberman, chanceler israelense, cujo partido é tão racista e belicista que mete medo aos próprios sionistas. Fora uma meia dúzia de gatos pingados, ninguém se levantou contra o objetivo de sua missão - torpedear a visita do chefe de outro Estado, que é o melhor parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio. Não obstante, agora, em novembro, foi o próprio presidente de Israel, Shimon Perez, que veio aqui bater em todas as portas dos podres poderes para dizer que desaprova um ato de soberania do governo brasileiro. 

Nesse episódio, quem aplaude a matança sistemática de palestinos que Israel promove, ao ponto de estar sendo levado aos tribunais pelas carnificinas de Gaza, só tem palavras para estigmatizar o presidente iraniano. 

Outra coisa é o epíteto de ditador atribuído ao presidente da Venezuela, reeleito em pleito limpíssimo, que eu acompanhei com meus próprios olhos em 2006. Como ele é hoje o principal alvo dos contrariados donos do mundo, que já tentaram derrubá-lo em 2002, o seu sistema de participação direta do povo, através de referendos, em função do qual ganhou o direito de concorrer a um terceiro mandato, é tido como expressão de uma "ditadura populista". 

Seu colega colombiano, Álvaro Uribe, que hospeda um monte de bases militares norte-americanos de cara para a Venezuela, também está correndo atrás do terceiro mandato, só que pelos métodos da corrupção dos parlamntares. Como ele é da copa e da cozinha do Pentágono, ninguém diz uma única palavra contra sua pretensão. 

E o milionário Bloomberg, que ganhou o direito ao terceiro mandato, numa campanha em que gastou mais de US$ 100 milhões, por uma estanhíssima decisão da Câmara Municipal de Nova York? Aí os críticos do líder venezuelano fazem um patético silêncio obsequioso. É tal o ódio e a incoerência que um amigo me escreveu alertando para o perigo de Chávez ter sua bomba atômica, como desdobramento de suas boas relações com o Irã. É mole ou quer mais? 

Quanto ao outro lado, poderia falar muitas coisas. Mas não há nada mais desonesta do que essa posição do governo em relação aos aposentados, num país em que a população tende a ser mais idosa e vive a dramática incerteza ante a insensibilidade de quem esvazia a previdência pública só para abrir caminho aos grandes bancos, beneficiários do vertinoso crescimento da previdência privada. 

Se ainda estiver vivo, e se tiver obtido uma trégua do meu estômago, voltarei ao assunto, logo, logo. 

*A partir de 1933, a investigação de William Reich sobre o "orgone" tomou todo o seu tempo e o obrigou a encerrar a sua prática particular da medicina. Reich colocou na cabeça que esta energia, a orgone, não é liberada unicamente durante o orgasmo, mas que ele representa uma força vital que sustenta o conjunto da criação - uma espécie de força cósmica, invisível e onipresente, constituindo o fundamento mesmo da existência. Sua teoria é que todos os males humanos resultam de bloqueios no fluxo dessa força. Em conseqüência ele concentra seus trabalhos sobre uma maneira de captar, utilizar, desenvolver e de um modo geral, de manipular o "orgone".



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